quinta-feira, dezembro 20, 2007

O Comboio Que Ia Parado

1 – O Dr. Abel Afonso, presidente da Comissão Politica Concelhia do PSD, foi recentemente apontado como o próximo candidato do partido nas eleições autárquicas de 2009. Ao que tudo indica, Marco António Costa, eleito presidente da Distrital do PSD do Porto há poucos dias, referiu várias vezes que o seu candidato para Amarante está encontrado na figura do Dr. Abel Afonso, pondo assim de parte a hipótese de apoiar como candidato Avelino Ferreira Torres.

2 – Olhe-se para o lado bom das coisas. O mesmo Marco António Costa, ao tempo das eleições de 2005 e também como presidente da Distrital do PSD do Porto, celebrizou a teoria de que na área politica do partido existiam dois comboios em andamento, pelo que na altura se encontravam em avaliação ambos os percursos de forma a perceber qual o comboio que ia mais rápido. Passado pouco mais de dois anos a atitude mudou de forma considerável, facto que é de saudar, porque apenas os espertos são capazes de mudar de opinião quando percebem que estiveram, ou estão, errados.

3 – Olhe-se para o lado mau das coisas. O objectivo pode ser pôr de parte os rumores do regresso do fantasma de Avelino Ferreira Torres e evitar danos irreparáveis na base eleitoral do PSD de Amarante. Mas será que lançar o nome de alguém a tanto tempo das eleições, por muitos méritos que a pessoa tenha, é uma atitude sensata? Será que lançar o nome de alguém, tendo em conta as recentes eleições da Comissão Politica do PSD de Amarante, é uma atitude oportuna? Será que lançar o nome de alguém, tendo em conta os recentes equilibrios atingidos nos orgãos do PSD de Amarante, não é uma atitude precipitada?

4 – Uma coisa parece certa: apontar o nome de um candidato nas actuais circunstâncias não foi concerteza fruto de inexperiência, em face do curriculo politico de Marco António Costa. Outra coisa parece certa: o percurso do PSD de Amarante rumo a 2009 vai ser muito dificil, tal como tem sido tradição do partido ao longo dos últimos actos eleitorais.

5 – Para bem de Amarante, oxalá deixem andar o comboio de 2009 pelo caminho que não o deixaram fazer em 2005.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 13 Dezembro 2007

terça-feira, novembro 27, 2007

"Luz e Escuridão"

"Agora tinha pesadelos todas as noites. Não eram exactamente pesadelos, não no plural, pois o cenário era sempre o mesmo. Seria de esperar que, passados tantos meses, estivesse aborrecida e me libertasse daquele cenário...mas o facto é que esse cenário não deixava de me apavorar e só terminava mal acordava aos gritos.

O meu pesadelo nem sequer assustaria mais ninguém. Não havia nada que aparecesse de repente. Não havia mortos-vivos, fantasmas, nem psicopatas. Na verdade, não havia nada. Simplesmente nada.

Apenas um labirinto interminável de árvores cobertas de musgo, tão tranquilo que o silêncio exercia uma pressão incómoda sobre os meus tímpanos. Estava escuro, como o entardecer de um dia nublado, com claridade suficiente apenas para ver que nada havia. Eu atravessava a penumbra a toda a velocidade, sem caminho por onde seguir, sempre à procura...à procura...à procura...sentido-me mais agitada à medida que o tempo passava e tentando deslocar-me mais rapidamente, ainda que a velocidade me tornasse desajeitada...

Depois, a dada altura no meu sonho, sentia-a a chegar, apesar de nunca conseguir acordar antes de ela aparecer...não conseguia recordar-me do que procurava. Apercebia-me de que nada havia para procurar nem para encontrar, de que nunca existira nada, a não ser aquele bosque vazio e desolador e de que nunca mais existiria nada para mim...nada senão o nada...

Era mais ou menos nessa altura que os gritos começavam.

Não prestava qualquer atenção ao sentido em que seguia, percorrendo apenas estradas secundárias, desertas e molhadas, evitando todos os caminhos que me levassem a casa...sem ter para onde ir. Queria voltar a sentir-me adormecida.

Não queria lembrar-me da floresta. Mesmo ao afastar as imagens com um estremecimento, sentia os meus olhos encherem-se de lágrimas e a dor começava nos limites do buraco que se apoderara do meu peito.

"Será como se eu nunca tivesse existido". Estas palavras não me saiam da cabeça. Não passavam de meras palavras, sem som, uma simples impressão numa página. Meras palavras, mas que faziam o buraco abrir-se.

Perguntei-me quanto tempo aquilo poderia durar. Talvez um dia, passados alguns anos, se a dor diminuísse ao ponto de conseguir suportá-la, conseguisse olhar para trás e considerasse que aqueles breves e raros meses seriam, para sempre, os melhores da minha vida. E, se a dor alguma vez abrandasse o suficiente para que pudesse fazê-lo, tinha a certeza de que me sentiria grata pelo tempo que ele me tinha concedido. Mais do que pedira, mais do que merecia. Talvez um dia encarasse tudo daquela forma.

Mas e se aquele buraco não melhorasse? E se os limites em carne viva nunca cicatrizassem? E se a lesão fosse eterna e irreversível?

Tentei firmemente não desmoronar. "Como se ele nunca tivesse existido", pensei com desespero. Que promessa estúpida e impossível de se fazer!

Ele podia roubar-me as fotografias e reaver os presentes que me tinha oferecido; no entanto, isso não fazia com que tudo voltasse a ser como era antes de o conhecer. As provas materiais eram a parte mais insignificante daquela equação. Eu tinha mudado...aliás, o meu interior alterou-se ao ponto de se tornar irreconhecível.

Até o meu lado exterior ficara diferente, a minha cara estava pálida, branca, à excepção das olheiras roxas que os pesadelos me provocavam. Os meus olhos escuros contrastavam tanto com a pele lívida que se eu fosse bonita e vista á distância podia passar por vampira.

Como se ele nunca tivesse existido? Era uma pura loucura. Tratava-se de uma promessa que ele jamais poderia cumprir, uma promessa que fora quebrada no momento em que ele ma fez.

Bati com a cabeça no volante, tentando abstrair-me de uma dor mais insuportável."

sexta-feira, outubro 19, 2007

Memória


Quando será que a memória traz consigo paz e força interior?


Pessoas, coisas, acontecimentos, olhares, frases, palavras, gestos, esquecimentos, músicas, filmes, fotografias, objectos, faces, discussões, sucessos, alegrias, tristezas, momentos marcantes, um beijo, uma paisagem, uma noite, um Natal, um impulso, um abraço, um sorriso, um sacrificio, uma ajuda, um pedido de ajuda, um amigo, uma amiga, uma confissão, uma asneira, uma vitória, uma derrota, um animal, um amor,um livro, um elogio, uma critica, um discurso, um desportista, um clube, uma bandeira, uma escola, um passeio, o mar, um jardim, uma igreja, um jantar, uma viagem, uma prenda, um museu, um professor, uma aula, um espaço, a familia.


Tudo faz memória e recordar um pedaço de nós. Mesmo quando há lembranças que pensamos bem afastadas, de um momento para o outro até o mais pequeno pormenor nos traz ao pensamento memórias apagadas.

Será que alguém, ao escrever as suas memórias ao fim de muitos anos, o faz sempre com alegria, saudade genuína do passado e com um sorriso nos lábios? Será que alguém o faz sem conseguir não chorar?

Será que alguém consegue mesmo medir a forma como os acontecimentos do passado e as memórias que deles se guardam, moldaram a sua personalidade? Até mesmo quando pensamos que foram insignificantes?

Será que apenas ao fim de muito tempo conseguimos lidar com a memória do passado sem querermos voltar atrás no tempo? Será que a memória é dona de cada um de nós?

Como podem memórias difíceis deixarem saudade? E memórias de coisas que sempre nos acarinharam não nos tocarem quando chegam de novo? Será que olhamos para trás apenas da nossa maneira, confundindo memórias passadas com o que vimos no presente?

Será que as memórias não mudam nunca? Será indiferente encontrar de novo uma pessoa ao fim de muitos anos ou apenas ao fim de algumas semanas?

Será que as memórias dependem do ponto de vista de cada um? Da forma como somos felizes no presente?

Será possível substituir memórias?


segunda-feira, outubro 01, 2007

Segundas Oportunidades

"Há uma crise nos partidos que se vem afirmando desde 1989, desde a queda do muro de Berlim, em que se perspectivou que tinha chegado o fim da história e que não eram precisas mais definições programáticas muito claras e que só havia uma maneira de governar. Ao centro e de acordo com determinadas regras de economia liberal de mercado."

A frase é da autoria de Luis Filipe Menezes em entrevista recente, poucos dias antes da sua eleição para presidente do PSD, e tem a capacidade de nos transmitir em poucas palavras uma idéia de qual será o seu comportamento no futuro próximo.

Se o PS tem ultrapassado o PSD pela direita, agora o PSD torna-se capaz de ultrapassar o PS pela esquerda. As directas do PSD e o seu resultado final tem feito alguns mortos darem voltas no túmulo.

O PSD acordou para a dura realidade da eleição directa do seu líder, num periodo em que procurava rever as suas orientações programáticas e em que também se encontra "perdido" no meio de tempos de oposição, onde o partido, claramente, não sabe viver.

Luis Filipe Menezes, goste-se ou não dele, ganhou a legitimidade que os dois últimos presidentes do partido nunca tiveram na realidade. Ganhou com o voto dos militantes, ganhou de forma clara, ganhou numa disputa clarificadora, tem o caminho aberto para que todos fiquemos a saber qual o verdadeiro valor que o seu estilo de liderança possui.

Por outro lado, o PSD entra claramente numa nova fase. Acabou a fase dos congressos, embora tenha ficado patente a gritante falta de organização do partido para eleições directas. Acabou a fase em que os barões e outras pessoas até relativamente afastadas da esfera do partido, punham e dispunham das suas peças de xadrez como muito bem entendiam. Acabou a fase em que não eram os militantes que verdadeiramente escolhiam o seu líder.

Não que se acredite que estes novos hábitos possam chegar rapidamente a todo o partido. Existem ainda dirigentes que vivem da falta de discussão e participação interna para imporem as suas orientações, seja por interposta pessoa ou, quando a altura se torna mais propícia, pelas suas próprias mãos.

Mas o caminho de qualquer partido deve ser o da clarificação, doa o que doer. E deve ser também o da participação aberta e sincera das pessoas, sem condicionalismos e com respeito pela maioria dominante, mesmo que essa maioria esteja na posse de uma segunda ou até de uma terceira oportunidade.

Convém no entanto que todos aproveitem a sua oportunidade, porque se a forma destemida de Luis Filipe Menezes fizer escola, não vai haver mais segundas oportunidades para ninguém. A força de um voto ultrapassa em muito a de uma arma.