quarta-feira, janeiro 02, 2008

Pobres e Intimidados

1 – Alguém disse na televisão que o problema de acesso ao Incentivo ao Arrendamento Jovem “não está no facto de ser jovem, mas sim no facto de ser pobre” e que “para os pobres existem outros apoios que facilitam o acesso a uma habitação”! Apetece perguntar onde estão esses apoios! Pena não ter reparado no nome de quem é capaz de dizer tal barbaridade!

2 – Alguém se deu ao trabalho e chegou á conclusão de que vir pela A4 do Porto para Amarante saindo em todas as portagens, fica mais barato do que fazer a viagem toda de seguida. Descobriu que viver em Amarante fica mais caro que viver em Paredes ou Valongo. Já não chega tudo o resto, também nas auto estradas os quilómetros são de preço diferente.

3 – Alguém apelidou a JSD de Amarante de irresponsável e mentirosa. Tudo por causa das piscinas de Vila Meã, assunto que até fez com que a JS acordasse do seu sono profundo. É assim que o Dr. Armindo Abreu trata as pessoas que não concordam com ele, disparando frases contudentes julgando que intimida quem ouve.

4 – Alguém se absteve na votação do orçamento camarário para 2008. O engenheiro Carlos Silva não se intimida e entregou uma declaração de voto cheia de sugestões com as quais é dificil não concordar. Não teria sido melhor aproveitar as suas idéias enquanto tinha a confiança politica do Presidente da Câmara? Ou o Dr. Armindo Abreu apenas consegue trabalhar em harmonia com quem se intimida?

5 – Alguém colocou um cartaz na rotunda do Queimado, anunciando que não desapareceu. O Dr. Avelino Ferreira Torres sentiu-se pressionado com o surgimento do nome de Abel Afonso como candidato do PSD e tratou de apressar as coisas?

6 – Uma nota sobre 2007 falando de economia. Talvez 2007 tenha sido o ano em que mais se notou a força de trabalho portuguesa que todas as semanas é absorvida pelo mercado espanhol, principalmente no sector da construção civil. O que será da taxa de desemprego em Portugal se o mercado imobiliário em Espanha mostrar sinais de abrandamento? Mais cedo ou mais tarde é certo que tal aconteça.

7 – Uma nota sobre 2007 falando de politica. A Presidência Portuguesa da União Europeia cumpriu os seus objectivos e termina coroada de sucesso, deixando uma marca na história europeia. José Socrates está de parabéns. Independentemente do trabalho de Durão Barroso ou da Presidência Alemã, foi José Socrates o rosto da União Europeia nos últimos seis meses.

8 – Uma última nota. O Millennium BCP teve nota negativa em 2007. Não chegaria um jornal para explicar a importância do sistema bancário no nosso país. Se os próprios bancos não forem capazes de cuidar da sua imagem e agir com verdadeiro rigor, não há economia que nos valha.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 27 Dezembro 2007

domingo, dezembro 30, 2007

As Coisas Vulgares

Mariza canta:

"As coisas vulgares que há na vida não deixam saudade, só as lembranças que doem ou fazem sorrir"...

"Há dias que marcam a alma e a vida da gente, e aquele em que tu me deixaste não posso esquecer"...

Vale a pena ouvir vezes sem conta.

A receita para ser feliz passa por ter muita saúde e muito pouca memória...mas será mesmo assim? As coisas vulgares não nos deixam saudade e não nos consomem parte da felicidade que procuramos. Também não nos consomem memória.

São as coisas que nos marcam, que nos doem, ou que nos fazem sorrir, que nos deixam saudade e nos fazem ser felizes mesmo quando já não estão por perto. A dor, assim como o prazer, também nos faz sentir vivos.

Porque é possível estar fisicamente perto e emocionalmente longe. Podem passar alturas em que isso parece completamente impossível. Mas a verdade é que o tempo cura tudo, por muito tempo que passe.

Será que passou demasiado tempo? Tempo com memória em excesso?

Apenas ainda não passou o tempo todo que é preciso passar. Mas o tempo nunca se perde.

E no fim de um ano inteiro pode-se remexer nos recantos da memória, ir buscar textos antigos e lembrar o que sentimos na altura, os sitios onde passamos e que nos levaram a escrever, as noites perdidas á procura da memória dos outros ou a tentar perder a nossa própria memória.

 

          

quinta-feira, dezembro 20, 2007

O Comboio Que Ia Parado

1 – O Dr. Abel Afonso, presidente da Comissão Politica Concelhia do PSD, foi recentemente apontado como o próximo candidato do partido nas eleições autárquicas de 2009. Ao que tudo indica, Marco António Costa, eleito presidente da Distrital do PSD do Porto há poucos dias, referiu várias vezes que o seu candidato para Amarante está encontrado na figura do Dr. Abel Afonso, pondo assim de parte a hipótese de apoiar como candidato Avelino Ferreira Torres.

2 – Olhe-se para o lado bom das coisas. O mesmo Marco António Costa, ao tempo das eleições de 2005 e também como presidente da Distrital do PSD do Porto, celebrizou a teoria de que na área politica do partido existiam dois comboios em andamento, pelo que na altura se encontravam em avaliação ambos os percursos de forma a perceber qual o comboio que ia mais rápido. Passado pouco mais de dois anos a atitude mudou de forma considerável, facto que é de saudar, porque apenas os espertos são capazes de mudar de opinião quando percebem que estiveram, ou estão, errados.

3 – Olhe-se para o lado mau das coisas. O objectivo pode ser pôr de parte os rumores do regresso do fantasma de Avelino Ferreira Torres e evitar danos irreparáveis na base eleitoral do PSD de Amarante. Mas será que lançar o nome de alguém a tanto tempo das eleições, por muitos méritos que a pessoa tenha, é uma atitude sensata? Será que lançar o nome de alguém, tendo em conta as recentes eleições da Comissão Politica do PSD de Amarante, é uma atitude oportuna? Será que lançar o nome de alguém, tendo em conta os recentes equilibrios atingidos nos orgãos do PSD de Amarante, não é uma atitude precipitada?

4 – Uma coisa parece certa: apontar o nome de um candidato nas actuais circunstâncias não foi concerteza fruto de inexperiência, em face do curriculo politico de Marco António Costa. Outra coisa parece certa: o percurso do PSD de Amarante rumo a 2009 vai ser muito dificil, tal como tem sido tradição do partido ao longo dos últimos actos eleitorais.

5 – Para bem de Amarante, oxalá deixem andar o comboio de 2009 pelo caminho que não o deixaram fazer em 2005.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 13 Dezembro 2007

terça-feira, novembro 27, 2007

"Luz e Escuridão"

"Agora tinha pesadelos todas as noites. Não eram exactamente pesadelos, não no plural, pois o cenário era sempre o mesmo. Seria de esperar que, passados tantos meses, estivesse aborrecida e me libertasse daquele cenário...mas o facto é que esse cenário não deixava de me apavorar e só terminava mal acordava aos gritos.

O meu pesadelo nem sequer assustaria mais ninguém. Não havia nada que aparecesse de repente. Não havia mortos-vivos, fantasmas, nem psicopatas. Na verdade, não havia nada. Simplesmente nada.

Apenas um labirinto interminável de árvores cobertas de musgo, tão tranquilo que o silêncio exercia uma pressão incómoda sobre os meus tímpanos. Estava escuro, como o entardecer de um dia nublado, com claridade suficiente apenas para ver que nada havia. Eu atravessava a penumbra a toda a velocidade, sem caminho por onde seguir, sempre à procura...à procura...à procura...sentido-me mais agitada à medida que o tempo passava e tentando deslocar-me mais rapidamente, ainda que a velocidade me tornasse desajeitada...

Depois, a dada altura no meu sonho, sentia-a a chegar, apesar de nunca conseguir acordar antes de ela aparecer...não conseguia recordar-me do que procurava. Apercebia-me de que nada havia para procurar nem para encontrar, de que nunca existira nada, a não ser aquele bosque vazio e desolador e de que nunca mais existiria nada para mim...nada senão o nada...

Era mais ou menos nessa altura que os gritos começavam.

Não prestava qualquer atenção ao sentido em que seguia, percorrendo apenas estradas secundárias, desertas e molhadas, evitando todos os caminhos que me levassem a casa...sem ter para onde ir. Queria voltar a sentir-me adormecida.

Não queria lembrar-me da floresta. Mesmo ao afastar as imagens com um estremecimento, sentia os meus olhos encherem-se de lágrimas e a dor começava nos limites do buraco que se apoderara do meu peito.

"Será como se eu nunca tivesse existido". Estas palavras não me saiam da cabeça. Não passavam de meras palavras, sem som, uma simples impressão numa página. Meras palavras, mas que faziam o buraco abrir-se.

Perguntei-me quanto tempo aquilo poderia durar. Talvez um dia, passados alguns anos, se a dor diminuísse ao ponto de conseguir suportá-la, conseguisse olhar para trás e considerasse que aqueles breves e raros meses seriam, para sempre, os melhores da minha vida. E, se a dor alguma vez abrandasse o suficiente para que pudesse fazê-lo, tinha a certeza de que me sentiria grata pelo tempo que ele me tinha concedido. Mais do que pedira, mais do que merecia. Talvez um dia encarasse tudo daquela forma.

Mas e se aquele buraco não melhorasse? E se os limites em carne viva nunca cicatrizassem? E se a lesão fosse eterna e irreversível?

Tentei firmemente não desmoronar. "Como se ele nunca tivesse existido", pensei com desespero. Que promessa estúpida e impossível de se fazer!

Ele podia roubar-me as fotografias e reaver os presentes que me tinha oferecido; no entanto, isso não fazia com que tudo voltasse a ser como era antes de o conhecer. As provas materiais eram a parte mais insignificante daquela equação. Eu tinha mudado...aliás, o meu interior alterou-se ao ponto de se tornar irreconhecível.

Até o meu lado exterior ficara diferente, a minha cara estava pálida, branca, à excepção das olheiras roxas que os pesadelos me provocavam. Os meus olhos escuros contrastavam tanto com a pele lívida que se eu fosse bonita e vista á distância podia passar por vampira.

Como se ele nunca tivesse existido? Era uma pura loucura. Tratava-se de uma promessa que ele jamais poderia cumprir, uma promessa que fora quebrada no momento em que ele ma fez.

Bati com a cabeça no volante, tentando abstrair-me de uma dor mais insuportável."