terça-feira, junho 10, 2008

O Nosso Spread

1Muito se tem falado na falta de liquidez do sistema bancário. Em termos simples, liquidez não é mais do que o dinheiro que o banco tem disponível para emprestar aos clientes. Não esquecer que o negócio do crédito é o principal motor do sistema bancário.

2Como podem os bancos obter dinheiro para emprestar aos clientes? Em termos simples, de duas maneiras. Por um lado, oferecendo taxas mais altas nos depósitos a prazo para assim captar mais dinheiro no mercado. Por outro lado, numa operação financeira mais complicada, podem pedir dinheiro emprestado a outros bancos que tenham liquidez suficiente.

3 - Assim, um banco pode pegar, por exemplo, no conjunto da sua carteira de crédito á habitação e oferecer esse conjunto de créditos como garantia de um empréstimo, obtendo assim dinheiro para emprestar aos seus clientes. Mas que spread irá o banco pagar nesse empréstimo?

4Não há muito tempo, esses empréstimos entre bancos faziam-se com spreads reduzidos, inferiores a 0.2%. Neste momento, existem bancos do sistema português e europeu dispostos a pagar spreads bem superiores a 1% para conseguirem obter crédito no mercado intrabancário.

5Assim, se para obter dinheiro o nosso banco paga spreads superiores a 1%, onde irá parar o spread que todos iremos pagar no nosso crédito? Terá que ser necessariamente mais alto. Já não basta o preço do petróleo ou o preço dos bens alimentares, o preço do crédito também vai subir.

6A essência do problema vem da crise subprime dos EUA. Mas não se pense que apenas nos EUA existe a mistura explosiva que combina crédito de alto risco com taxas de juro baixas. Também no mercado português e europeu essa prática foi corrente durante os últimos anos, fruto da grande concorrência no mercado bancário.

7Imagine-se que de um momento para o outro as nossas casas se desvalorizam de forma brutal no mercado imobiliário. Os bancos ficam sem garantia suficiente para o crédito que nos concederam. No limite, muitos deles podem falir. E a falência do sistema bancário seria um abanão enorme no frágil equilibrio da economia de mercado.

8Todos procuramos crédito ao mínimo preço possível. Mas a tendência vai inverter-se, mesmo que lentamente. O preço do crédito será mais de acordo com o risco do crédito. O nosso spread vai subir. E mesmo parecendo contraditório, os fabulosos lucros dos bancos vão baixar.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 29 Maio 2008

domingo, maio 25, 2008

A Tua Mão

A estrada não terminava mais. Parecia caminhar numa direcção estranha, ali tão perto. Mas a viagem não terminava nunca.

A única estrada, que se repetia vezes sem conta. O único caminho, aquele que os pés voltavam teimosamente a percorrer, que encontravam de novo após cada colina ultrapassada.

Não havia porto de abrigo. No meio da viagem, um pequeno espaço bem verde. Não servia. No meio da viagem, um local bem fresco com muita água. Não servia. No meio da viagem, uma boleia de mão dada, quente e passageira. Não servia.

Nada a fazia parar. Não aparecia nada que parasse a viagem para aquele sítio ali tão perto.

Por onde agarrar a paragem naquela luta contra a estrada, contra aquele impulso de não parar nunca? Seria possível sair daquele caminho e procurar no meio da paisagem alguma pedra para se sentar?

As pedras rolavam sem parar pelas margens da estrada.

Até que uma parou. Apareceu e trouxe o espaço com ela, estendeu a mão, quente e disposta a ficar. Aparentemente disposta a ficar.

Mas com tantas pedras a rolar pela margem, porque haveria uma delas ficar parada, disposta a prosseguir viagem pela estrada que não se via o final?

Após cada curva, ela acreditava cada vez mais que sim. Porque acreditar está na razão de quem procura o destino da estrada interminável.

E que outra saida senão acreditar? Pelo menos desaparecia o medo, desaparecia a ansiedade, voltava por momentos a calma de quem caminha sem saber para onde, mas que se sente bem com o caminho tal qual ele é, sinuoso e interminável.

Talvez a estrada se desvie, ficando por perto de casa. E tudo acabe por ficar bem, tal como está agora.

 

Competência E Modernidade

1Bob Geldof é um activista no verdadeiro significado da palavra. Aproveitou a oportunidade de intervir numa conferência sobre desenvolvimento sustentado organizada pelo BES, para apontar o dedo, de forma aberta, ao que se passa em Angola.

2 – Quem não conhece um qualquer empresário português, que depois de visitar Angola para concretizar um negócio, não tenha dito que o que é preciso para o sucesso naquele país é conhecer as pessoas certas e distribuir algum do lucro do negócio entre elas?

3 – Por imperativos de carácter económico, obviamente que o BES veio dizer que não se revê nas declarações de Bob Geldof. Todos sabemos porque razão o BES tinha que agir desta forma. Todos sabemos também que o que disse Bob Geldof é verdade. O Mundo corre assim, cheio de hipocrisia e submissão dos valores ao poder económico.

4 – José Luis Gaspar é o candidato do PSD para Amarante. O candidato da Competência e Modernidade está de volta. Muitas vezes perdido em trabalhos que nada dizem aos amarantinos, o PSD teve a serenidade para encontrar um bom candidato.

5 – José Luis Gaspar precisa agora de encontrar o seu caminho e a sua estratégia, fazendo a ponte entre os caminhos que o PSD tem disponíveis, mais pela direita, ou mais pela esquerda, mais próximo do eleitorado que votou Ferreira Torres em 2005, ou mais próximo do eleitorado que votou PS em 2005.

6 - Ou, numa alternativa teoricamente ideal, encontrar o seu caminho, num estilo próprio, muito pouco preocupado com o passado. Porque José Luis Gaspar terá antes de mais que demonstrar aos eleitores que é capaz de ser Presidente de Câmara.

7 – O confronto com Armindo Abreu é sempre difícil. E a próxima campanha eleitoral vai estar carregada de temas pesados, como a Barragem de Fridão, entre outros. Se o confronto em 2009 se resumir a PSD e PS, vai-se discutir mais Amarante, mais competência, mais modernidade, mais inovação, mais alternativa.

8 – José Luis Gaspar terá de estar preparado para isso. E antes dele, também o PSD terá de estar preparado para isso.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 15 Maio 2008

domingo, maio 11, 2008

Psicologia Da Multidão

1Tal como uma equipa de futebol é mais do que a simples soma dos seus jogadores, uma multidão também actua para lá da simples soma dos pensamentos das pessoas que dela fazem parte. Por isso, as equipas desportivas, as empresas, as multidões ou as organizações políticas valem sempre mais do que o conjunto das pessoas que as constituem.

2 – O PSD nacional comporta-se como uma multidão incontrolável. De um lado, a candidatura de Manuela Ferreira Leite, que pode ser a candidata do sistema, a candidata que não representa por si só uma renovação, mas que assume uma candidatura que parece capaz de devolver ao partido a dinâmica que sempre demonstrou, fazendo a ponte entre as bases e os militantes mais ilustres do PSD.

3 – Do outro lado do mesmo partido, uma confusão difícil de entender. Pedro Passos Coelho lança uma candidatura para marcar posição para o futuro. Não está mal. Pedro Santana Lopes lança uma candidatura para tentar contrariar a história. Está muito mal. O presidente da distrital do PSD de Lisboa, juntamente com o presidente da distrital do PSD do Porto, falam numa candidatura de Alberto João Jardim. Não está bem nem mal, está péssimo.

4 – Ainda bem que já não são as estruturas distritais do partido que possuem o poder para eleger o novo líder, caso contrário o PSD estaria a caminhar para o abismo. Ainda bem que os militantes podem usar da palavra através do seu voto, percebendo o que se tem passado ao longo dos últimos 3 anos, tendo uma nova oportunidade de devolver o PSD ás suas verdadeiras origens.

5 – Ninguém saberá qual o caminho que o partido seguirá de 31 de Maio em diante. No entanto, no meio de toda a confusão que tem passado para a opinião pública, de alguma forma exagerada pela cobertura da comunicação social a pessoas que fazem da política a arte da agitação e não a arte da argumentação, uma coisa positiva pode acontecer: o PSD vai ficar clarificado.

6 - E essa clarificação é boa para o partido e para Portugal, que bem precisa de uma oposição credível e capaz de se afirmar como alternativa.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 30 Abril 2008