terça-feira, maio 04, 2010

Momentos De Liderança

1 – Mais do que a capacidade própria de uma organização, é a liderança dessa mesma organização que define o seu sucesso. Todos conhecemos grandes clubes de futebol com bons e maus líderes ao longo do tempo. Todos conhecemos grandes empresas com bons e maus líderes ao longo da sua existência. Todos conhecemos grandes países com fases distintas ao longo do tempo. Todos seremos capazes de recordar partidos políticos que vão do céu ao inferno de acordo com a capacidade do seu líder de momento.

2 – Se todas as organizações possuem virtudes próprias que fazem com que tenham grande potencial intrínseco, apenas os líderes, os bons líderes, são capazes de aproveitar esse potencial. Por isso, o momento em que chega ao fim um ciclo de liderança é sempre uma altura crucial na vida de qualquer estrutura. É nesse momento que se pode verificar verdadeiramente se o líder que acaba o seu ciclo foi capaz de engrandecer a sua organização, preparando pessoas e a estrutura para o futuro.

3 – A propósito, julgo que o PS de Amarante, onde ocorreu recentemente a eleição de uma nova liderança, passa precisamente por uma fase de transição, ou se quisermos, pelo fim de um ciclo, que marcou para o bem e para o mal o próprio Partido Socialista e também Amarante no seu todo.

4 – Para quem está bastante afastado da área do PS de Amarante mas acompanha com natural interesse o fenómeno político, não pode deixar de registar com curiosidade o facto de a nova liderança ter obtido a vitória contra uma lista que incluía os actuais vereadores socialistas da Câmara Municipal de Amarante, alcançando uma vitória aparentemente contra a corrente dominante no partido.

5 – Fazendo justiça ao Partido Socialista de Amarante, é justo reconhecer que o processo eleitoral, embora não disfarçando as actuais divisões no seio do PS, decorreu de forma correcta. Assim como será justo reconhecer que o afastamento de Armindo Abreu da liderança surge na altura certa para que o partido tenha todo o tempo de preparação para o futuro.

6 – No momento político actual o PS dá o exemplo de preparação para o futuro. E Armindo Abreu demonstra lucidez suficiente, própria de um líder. Cabe agora aos outros partidos, nomeadamente ao PSD, reflectirem profundamente sobre o seu futuro, sobre as ideias e projectos para Amarante e sobre os rostos capazes de darem corpo às naturais ambições do partido para Amarante.

7 – As reflexões sobre a liderança não podem ser inócuas para o PSD. Os líderes são feitos de presente e futuro, mas também de provas dadas e testadas. As ambições partidárias devem ter por base projectos concretos e os líderes de um partido devem forçosamente ter capacidade para os explicar ao eleitorado. Sem se esquecer que gravita em torno dos mesmos rostos há mais de 10 anos, o PSD de Amarante tem de reflectir profundamente o seu futuro.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 22 Abril 2010

sábado, abril 24, 2010

Mudar

1 – No próximo fim-de-semana realiza-se o congresso do PSD, na conclusão do processo eleitoral que conduziu Pedro Passos Coelho a uma vitória que legitima totalmente a sua liderança. Com uma percentagem superior a 60%, numas eleições disputadas com quatro candidatos, Pedro Passos Coelho tem finalmente a oportunidade de liderar o PSD com toda a liberdade de quem foi eleito de forma indiscutível.

2 – Para além desse aspecto positivo, as eleições internas tiveram também a virtude dos seus protagonistas serem, em termos gerais, pessoas algo “desligadas” do passado do partido. É evidente que nenhum dos candidatos era um absoluto desconhecido de quem se interesse pelo fenómeno político, mas pelo menos, desta vez, não foram barões a concorrer para a liderança do partido.

3 – E para o PSD, nada melhor do que uma lufada de ar fresco nos seus rostos. Claro que agora falta conhecer em mais pormenor as ideias para Portugal do líder eleito e verificar o prometido comportamento dos candidatos derrotados de apoio e cooperação com a nova liderança. Mas o clima em que decorreram as eleições internas foi globalmente positivo e permite ao PSD olhar para o futuro mais preocupado com o país do que com as suas lutas internas.

4 – De alguma forma, pelo menos no trajecto até ao momento, Pedro Passos Coelho representa um corte com uma certa forma de estar no PSD. Ainda há no partido alguns ilustres intelectuais que se julgam superiores em tudo o que dizem ou fazem. E que mesmo passando pela sua carreira política com erro atrás de erro, julgam até ao fim ser os donos da verdade.

5 – Falta agora verificar se o poder permitirá a Pedro Passos Coelho cumprir a sua principal promessa: Mudar. Porque está à vista de todos que o PSD precisa de mudar. Para já, mudou a liderança nacional com a promessa de um corte com o passado que permita ao partido reconfigurar-se e libertar-se de velhas ideias e poderes instalados.

6 – No futuro, a seu tempo, espera-se que o Partido Social Democrata, desde o âmbito nacional ao local, seja capaz de acolher novos rostos. Novos não necessariamente na idade, entenda-se.

7 – Novos na atitude, novos no comportamento, novos na capacidade de abrir o partido à sociedade civil, novos na capacidade de atrair gente mais capaz e menos interessada em lugares. Novos, que sejam capazes de dar ao partido o essencial que lhe tem faltado: definir uma estratégia que as pessoas percebam tratar-se de algo que vai para lá da simples conquista do poder pelo poder.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 8 Abril 2010

sábado, abril 03, 2010

Rating Do Futuro

1 – O rating não é mais do que uma opinião sobre a capacidade e vontade de uma entidade vir a cumprir de forma atempada e na íntegra determinadas responsabilidades. Desta forma, todos temos o nosso rating. A começar pelo Estado, passando pelas empresas, até chegar a cada um de nós, todos somos classificados com base no nosso rating, mesmo que não estejamos conscientes disso.

2 – Quem atribui o rating são as famosas empresas de rating, contra as quais o Ministro das Finanças se insurgiu recentemente por terem diminuído o rating do Estado português, ou seja, por terem considerado que aumentou o risco de Portugal não ser capaz de pagar aquilo que deve. A atitude de Teixeira dos Santos tem óbvia razão de ser, dado que uma diminuição da notação de rating provoca imediatamente o aumento do custo de financiamento do Estado português e por consequência um aumento no custo dos empréstimos de todos os portugueses.

3 – Como se depreende, o poder das agências de rating é enorme. Mas depois de terem falhado redondamente e estarem entre os responsáveis da crise que atravessamos, porque razão continua tudo como antes, mantendo as agências de rating um poder brutal sobre a economia e finanças mundiais? Basicamente, a resposta a esta pergunta encontra-se no facto de todos terem falhado.

4 – Antes das agências da rating, falharam os governos, falharam as entidades reguladoras e de supervisão e falharam as instituições financeiras. Por isso é que aparentemente continua tudo como antes. Numa primeira fase todos se queixaram das agências de rating, responsabilizando-as pela crise, mas tal facto tratou-se apenas de uma manobra política para encobrir responsabilidades, porque tal qual está montado o sistema, não pode viver sem elas.

5 – E não passa sem elas, porque a tarefa de analisar o rating de países, empresas e particulares pelo mundo fora é uma tarefa gigantesca. Só entidades com grande poder de organização e de trabalho conseguem ter uma visão do mercado capaz de descansar os investidores.

6 – Quando um Estado ou uma empresa pede dinheiro emprestado no mercado, os investidores disponíveis para emprestar esse dinheiro não possuem, por si só, capacidade para analisar o risco subjacente ao empréstimo, pelo que a única forma de estarem relativamente seguros do seu dinheiro é basearem-se na opinião das agências de rating.

7 – Aparentemente, parece que as empresas de rating passaram pela tempestade da crise económica conseguindo o feito incrível de não se terem molhado um pouco que seja. Em grande medida, todos continuamos a depender da sua opinião, da sua visão da realidade, da sua capacidade de prever o futuro. O rating do futuro é igual ao rating no passado.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 11 Março 2010

sábado, fevereiro 20, 2010

Investimento Ou Despesa?

1 – A Câmara Municipal de Amarante aprovou recentemente a concretização de um empréstimo bancário no valor de 7.300.000 euros, com o objectivo de financiar várias obras, nomeadamente relacionadas com sistemas de abastecimento de água e drenagem de águas residuais, construção de centros escolares, requalificação urbana e execução de obras nos Estádios Municipais de Amarante e Vila Meã.

2 – Do empréstimo de 7.300.000 euros, 3.000.000 euros destinam-se a obras para sistemas de abastecimento de água e drenagem de águas residuais em várias freguesias, com destaque para Telões e Vila Garcia. Esta fatia de investimento é a mais signficativa na lista de obras a realizar e será, paralelamente com os 1.900.000 euros a investir nos centros escolares da Madalena/Lufrei, Vila Garcia/Gatão/Chapa/Aboim e Travanca, o investimento mais incontestado.

3 - Mas do empréstimo a contrair salta à vista um valor tido como despropositado para quem se opõem à forma de gestão de Amarante levada a cabo pelo PS. Amarante vai-se endividar em 2.000.000 euros na requalificação do campo de treinos do Estádio Municipal de Amarante e na execução do relvado sintético do Estádio Municipal de Vila Meã.

4 – Num momento em que o Dr. Armindo Abreu nem um simples protocolo diz ter possibilidade de proporcionar às Juntas de Freguesia, reduzindo o orçamento de cada uma delas à simples gestão corrente, Amarante vai contrair um empréstimo que, entre alguns investimentos importantes, servirá também para gastar 2.000.000 euros em campos de futebol, algo que, de todo, não parece decisivo neste momento para nenhum municipio.

5 – Se as obras de abastecimento de água e construção de centros escolares são, de facto, um investimento produtivo e importante para o futuro, gastar 2.000.000 euros em campos de futebol não é investimento mas sim despesa. E se a opção é gastar dinheiro a fomentar a prática desportiva, não seria preferível construir zonas desportivas que permitam a prática desportiva à generalidade da população, em vez de gastar esse dinheiro a investir em espaços utilizados por uma minoria dos amarantinos?

6 – Quer queiramos quer não, por muito importantes ou mediáticas que sejam as minorias, elas não deixam de ser simplesmente isso: minorias. E as decisões politicas devem levar isso em linha de conta. Quando as necessidades de espaços de prática desportiva para a generalidade da população estivessem satisfeitas, gastar 2.000.000 euros nos estádios municipais seria um investimento. Até lá é uma despesa que beneficia uma minoria da população e prejudica, por omissão, todos os outros.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 11 Fevereiro 2010