sexta-feira, março 20, 2009

Estratégia Para Quê?

1Ter as idéias no lugar é sempre importante. Quando existe um projecto para a criação de uma empresa, temos que pensar no produto a oferecer, analisar o mercado, analisar os recursos próprios da empresa como os recursos humanos e financeiros, ter um plano de marketing e comunicação, bem como planos de produção, investimento e financiamento.

2É ainda preciso um estudo económico que projecte a empresa a alguns anos de distância, preferencialmente entre 3 e 5 anos. Na posse de todos estes elementos poderemos afirmar que temos uma estratégia para o nosso negócio. Mas o que significa estratégia?

3 - Ter uma estratégia é saber exactamente o que queremos fazer, saber a razão porque o queremos fazer, saber que meios temos à nossa disposição, conhecer os nossos pontos fortes e fracos e conseguir transmitir aos outros de forma clara o que queremos para o futuro.

4Tal como na vida empresarial, também na política é fundamental ter estratégia. Pensando em Amarante, numa altura em que o Governo, para combater a crise económica, anuncia medidas de reforço do investimento na educação, não seria boa uma estratégia virada para ter escolas de excelência em todo o concelho?

5Ou quando o Governo fala em mais investimento em energias sustentáveis, será que não percebemos em Amarante que a aposta no ambiente faz parte do futuro? Numa terra que tão mal tem cuidado do seu turismo, não poderá ser o turismo ambiental uma área a explorar?

6Os investimentos anunciados em educação e energias sustentáveis representam oportunidades. Mas só é possível aproveitar essas oportunidades se na nossa estratégia as idéias estiverem claras. Será que querer construir um centro escolar num velho edificio fabril, como a Câmara de Amarante quer fazer em Mancelos, é exemplo de uma aposta de qualidade na educação? Será que sem inciativas de carácter cultural mais mobilizadoras, sem uma aposta no turismo ambiental e sem publicidade capaz, é possível a Amarante valorizar o seu turismo? Provavelmente, a resposta para as perguntas anteriores é não.

7Quando em 2005 ouvimos o PS falar na agricultura como forma de desenvolvimento de Amarante, não percebemos. Hoje, em 2009, continuamos a não perceber. Até podia ser uma estratégia, mas o tempo tem vindo a provar que estava errada, porque a agricultura é importante, mas por muito que nos custe, isolada nunca poderá ser um factor determinante no nosso desenvolvimento. São precisas novas estratégias. Esta é altura para as discutir. É altura de deixar de andar á deriva, de maneira que se perceba o que queremos que seja Amarante daqui a alguns anos.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 29 Janeiro 2009

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A Data Da Maioria

1 José Sócrates já está em campanha eleitoral e marca a agenda política. Já todos ficamos a saber que quer uma maioria absoluta nas próximas eleições. E por estranho que pareça, ao mesmo tempo que reconhece a recessão em que Portugal se encontra, José Sócrates consegue pedir nova maioria absoluta sem que esse pedido aparente ser contraditório com a realidade do país.

2Por outro lado, o Primeiro-Ministro lançou verdadeiramente a questão da data das próximas eleições, assunto ao qual o Presidente da República e a oposição pretendem não dar grande importância face “aos problemas mais importantes que preocupam os portugueses”. Acontece que não é de acreditar que para além de José Socrates todos os outros menosprezem a questão.

3 - A data das próximas eleições é muito importante precisamente por todos os problemas que afligem os portugueses. E realizar as eleições legislativas em separado, ou juntamente com as eleições europeias, ou então com as eleições autárquicas, não é uma questão menor para o país nem para as escolhas que os portugueses vão fazer ao longo de 2009.

4Sendo compreensível que o Presidente da República transmita a mensagem que neste momento não está preocupado com o problema, já não se compreende que os partidos da oposição façam de conta que só mais tarde se vão debruçar sobre o assunto. Não se compreende, porque ninguém acredita que assim seja. A oposição está obviamente preocupada com o tema.

5Mas para além de preocupada, a oposição também está enfraquecida. Por razões que quase dariam para escrever um livro, está enfraquecida no conteúdo das suas propostas e da sua estratégia, mas também na forma de comunicação e na união das suas tropas. De tal forma que perante mais um problema levantado por José Socrates, parece não ter um juizo formado sobre o assunto ou estar sem coragem de assumir a sua opinião.

6Assim, José Sócrates já vai à frente. Já disse que não quer que as eleições legislativas se disputem no mesmo dia das eleições autárquicas, de forma a evitar que se “prejudiquem as democracias locais”. Face a este argumento, o que pensa a oposição? Bem, não sabemos. Diz que em face da crise não é o tempo oportuno para falar do assunto.

7Por causa da crise a política fica suspensa? Então seria melhor deixar de fazer qualquer tipo de oposição e esperar tranquilamente pelo início da campanha eleitoral. Ironicamente a crise parece jogar a favor de José Sócrates, que da sua perspectiva não podia arranjar melhor aliado que uma crise assim e uma oposição assim, para pedir nova maioria absoluta.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 15 Janeiro 2009

Economizar Expectativas

1Expectativa é esperança. É esperar que algo aconteça com base em probabilidades ou promessas. Falar de economia é falar de expectativas. A economia real sofre da baixa esperança e falta de confiança dos consumidores. A economia financeira sofre com medo do futuro por parte dos investidores, que retiram dinheiro dos mercados e aumentam a sensação de insegurança de todos.

2A economia real e a economia financeira não vivem uma sem a outra. Há quem defenda que na base de todos os problemas está a facilidade no acesso ao crédito nos últimos anos. Os consumidores respiravam confiança porque o poder de compra parecia não ter fim. Os mercados financeiros, baseados na expectativa de que todos iriam ter poder de compra quase ilimitado para sempre, fundaram os seus princípios em lucros crescentes de ano para ano.

3 - Mas o dinheiro também desaparece. Em algum momento teria que haver uma correcção na economia que devolvesse pessoas e empresas à terra. As pessoas percebem hoje que poupar também é preciso. As empresas entendem finalmente que os lucros não vão crescer para sempre.

4Os bancos descobrem que podem falir de um dia para o outro, apesar dos lucros incríveis da sua actividade, e cortam bruscamente no crédito. A indústria automóvel acumula prejuizos, com empresas em risco de falência. A construção civil sofre com a falta de crédito, enquanto procura aumentar a qualidade do que faz. O sistema financeiro acumula perdas e descoberta de fraudes. As pessoas descobrem que a capacidade de poupança é reduzida.

5Os Governos desdobram-se em apoios para as empresas e anúncios de retoma do investimento público. O petróleo já esteve 3 vezes mais caro do que está hoje. A taxa de juro está quase a metade do que há cerca de 2 meses. As matérias primas estão hoje muitos mais baratas do que há alguns meses atrás.

6Todos estes factores, cuja evolução foi apontada durante grande parte do ano como a causa da crise, já baixaram consideravelmente de preço. O petróleo baixou, a taxa de juro baixou, as matérias primas também e os Governos estão novamente dispostos a investir. Mas a crise continua.

7Acima de tudo, uma crise de confiança. Ninguém confia no futuro e os princípios da eonomia de mercado estão fragilizados. Apesar disso, o único caminho viável é a economia de mercado. Só que agora, não há quem tenha expectativas sobre o que ela vai ser no futuro.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 31 Dezembro 2008

segunda-feira, dezembro 22, 2008

A Luz E A Vida

Uma criança pula alegremente no meio da rua agitada.

Passam pessoas de ar apressado, fechado e friorento. Carregam pastas cheias de papel, preocupações, compromissos e vícios próprios do tempo. Passam despercebidas, despercebidas da luz própria do Natal, da música, da vendedora de castanhas, dos embrulhos, despercebidos com a vida.

A luz, a da rua e a da quadra, captam a atenção da criança. Está perdida na fantasia de um mundo que fica para trás. Passa pela rua como quem brinca junto ao rio, descontraída e leve, apreciando a vida no Natal.

Na sua luta diária, a vendedora de castanhas apregoa a sua luz. Está forte e viva na voz. Está triste e zangada na expressão. O peso dos dias passa pelos seus cabelos, pelo ar irrequieto junto com um olhar triste.

Os olhos estão entre as castanhas e as pessoas que passam apressadas. Como seria a luz se fosse ela a passar pela rua? Seria feliz a comprar presentes, sem tempo para julgar a prenda ideal? Seria feliz vivendo mais agitada? Seria feliz vivendo com mais? Seria feliz vivendo com menos tempo para olhar?

No início da rua, uma mulher, com ar elegante e modo seguro, olha fixamente para a montra. A montra brilha, prende a atenção. Lá dentro está a prenda ideal. A mulher revê o seu plano, junta mentalmente o que pode e volta-se novamente para a rua. Não pode ser. A prenda está longe, do outro lado do vidro.

Volta ao seu modo apressado. Pode ser que até ao cimo da rua pare de novo. Já está atrasada. Percebe-se atrasada também nos projectos que idealizou. A prenda ideal deve estar em outro lado também. Talvez.

A chuva cai de repente, bem forte.

A mulher foge para junto de uma montra. A vendedora de castanhas fica debaixo do seu guarda-sol vermelho. A criança está entre as duas, bem no meio da rua.

A sua alegria está muito longe da chuva, continua perto das fantasias e da luz que a rua não deixa fugir.

A mulher olha para a criança e volta ao seu passo apressado, apesar da chuva.

A criança, finalmente molhada, corre para junto da vendedora de castanhas. Ali parecia acolhedor. Todos fugiam da chuva, abrigando-se ou correndo. Eles, continuavam no meio da rua. E a luz brilhava para os dois.