quinta-feira, abril 04, 2013

Fugir Da Esperança

Quando fugia, olhava para trás e tinha medo do que tinha pela frente.

Mas fugia desesperadamente de algo que não podia controlar, comandar ou apagar. Desesperadamente, sem direcção, sem rumo, sem previsão do que encontrar.

Qualquer lugar seria melhor do que ficar preso dos seus medos, preso ao comandante do seu sangue. Qualquer lugar parecia ter mais sol do que aquele em que se encontrava há vários meses.

Antes, havia calor, tanto como nunca tinha sentido. A vida fervia em sonhos, em momentos de puro prazer, em loucuras da imaginação nunca concretizadas.

De súbito, como uma chuva tardia, tudo se abateu sobre o seu lugar de eleição, tal como uma onde gigante que arrasta tudo que envolve. O espaço ficou frio, vazio, sem sentido. O espaço ficou cada vez mais frio, cada vez mais vazio, cada vez com menos sentido.

Como em todos os lugares, mesmo os mais escuros, havia espaço para a esperança. Mas nunca lhe seria possível ver esperança quando a verdadeira luz teimava em não apagar no seu coração.

A própria força da esperança queimava nos braços, pesava na consciência e tornava tudo ainda mais difícil, mais pesado, totalmente insuportável.

Fugir! É impossível voltar a nascer sem morrer primeiro.

Fugir! Fugir sem saber para onde.

Fugir! Desperdiçar a esperança por causa do coração e não por causa da razão.

Fugir! Nunca é tarde ou cedo para fugir, correr sozinho tentando não olhar para trás!

Fugir! Fugir para não magoar ninguém ficando parado.

Fugir! Fugir do beijo que comanda o seu sangue!

segunda-feira, janeiro 16, 2012

"TOCA A BANDA LÁ NO CORETO"

O momento político em Amarante tem sido dominado pela "troca" de opiniões entre vários elementos com ligações ao PSD, através da utilização do Jornal de Amarante para publicação de sucessivos artigos.


Num desses artigos, publicado durante o mês de Dezembro último, o Engenheiro Henrique Baptista questionou o silêncio do Coronel João Sardoeira, antigo vereador e candidato à liderança do PSD Amarante nas últimas eleições disputadas para a concelhia local.

Assim, o espaço deste blog é hoje aberto ao Coronel João Sardoeira, amigo que muito prezo e com quem tive o prazer de partilhar a luta política nas últimas eleições para a Comissão Política Concelhia do PSD de Amarante. O texto abaixo, publicado no Jornal de Amarante de 05 de Janeiro de 2012, é um exercicio delicioso, carregado de alguma da mais fina ironia que pude encontrar nas últimas leituras, tendo por isso o maior prazer no facto do seu autor me permitir a sua inclusão nest blog.




"TOCA A BANDA LÁ NO CORETO
(Festival Canção 1979 – l. C.A.Valente / m. C.Alberto Moniz)

Meu Caro Henrique Baptista

Não sei se este tempo de Natal é o certo para responder à interrogação/provocação que faz num dos seus últimos artigos no JA a este seu Amigo.
A bonança do tempo e o frio que enrijece os ossos ajudam a esta destemperada resposta em jeito de Boas-Festas.
Apesar de todos os cuidados que o tempo nos aconselha, não me tivesse eu vacinado aqui há tempos e seria apanhado pela sua Corrente de ar.
A sua profunda reflexão sobre a sua qualidade de cidadão amarantino e militante do PSD, leva-me a contar-lhe o seguinte:
Em 5 de Junho de 1949, Henrique Galvão então deputado à AN, publicava no JN, na sua coluna habitual na primeira página o artigo: - A propósito de uma filarmónica .
5 de Junho de 1949 foi domingo e Amarante festejava as Festas do Junho. A importância do artigo não tirava os amarantinos do largo de S. Gonçalo onde outras filarmónicas, a da PSP do Porto e BV da Lixa, passavam rua acima, rua abaixo, intervalando nos coretos passe-dobles, marchas ou luzidias peças avulsas de música clássica. O Cine-Teatro iria encher, à noite, com o filme Capas Negras. “
Contava Galvão ,no seu artigo, a história de uma filarmónica em que alguns sócios não andavam contentes com a direção ,porque : " o Mestre da banda, elevado às culminâncias da regência da filarmónica , porque fora antes, no agrupamento, flautim muito afinado e assíduo aos ensaios, gozava fama de excelente pessoa e de bom chefe de família - mas sabia pouco de música séria – além de que, dava satisfação à família o facto de ser ele, simples flautim sem probabilidades de trepar, o mestre da Banda. Gostava porém da batuta, do lugar proeminente que ocupava no coreto, de ler o seu nome citado na gazeta da terra. Para esconder as suas insuficiências recorreu ao tambor da charanga, que escrevia crónicas no jornal e lhe redigia os discursos quando havia festa grossa – mas valeu-se das manhas e esperteza de um primeiro clarinete que tocava de ouvido, mas parlapatão e bastante desacreditado na vila, por motivo das leviandades que haviam comprometido o cofre da sociedade...além deste apoiou-se também o mestre da Banda em alguns outros músicos já assobiados por desafinação crónica e fífias sistemáticas…”
Não acredito que Henrique Galvão alguma vez tenha ido às festas de Amarante ou que em alguma outra ocasião tenha ouvido tocar a filarmónica e muito menos conhecido o seu maestro, tambor ou primeiro clarinete.

Não o vou maçar mais com o artigo, que é longo e interessante, até porque as similitudes com a “Banda” que aí toca e as suas exibições nos diversos coretos, segundo o meu Amigo, são bastantes .

Contudo deixo mais este bocadinho do texto de Galvão, para o provocar.
Com tais peripécias dos " filarmónicos”, era cada vez maior o descontentamento dos sócios, a tal ponto que"... Na farmácia, no café, no mercado, se dissesse de toda a Banda mais do que Mafoma dissera do toucinho".
Como normalmente acontece foi tudo explanado em Assembleia Geral da Filarmónica a pedido de um sócio mais descontente e levado a votação.
Para espanto de todos "Viu-se então esta coisa, que nos tempos em que a Moral andava pelo mundo, seria espantosa: Quando o homem, perante a multidão dos sócios descontentes, disse em voz alta, o que todos indignamente diziam em voz baixa, na farmácia, no café, no mercado e pediu que se pusessem em ordem e decência as coisas da filarmónica
-os sócios mais honorários e importantes levantaram –se a louvar o Mestre da banda e a declarar que o próprio primeiro clarinete, à parte aquela mania de se associar ao cofre da Sociedade, também era muito simpático. Os músicos mais desafinados protestaram e quase provaram que tocavam Wagner e Mozart desde crianças e que a 5ª sinfonia não tinha segredo para eles. O sócio interpelante ficou muito mal visto - e a banda continuou a tocar no coreto da vila, com o mesmo Mestre, com o mesmo clarinete, o mesmo tambor e o mesmo repertório."

Assim se estava na oposição em 1949. Desassombradamente e com verticalidade. Vivíamos em pleno apogeu da ditadura salazarista. Agora, sessenta e dois anos depois ,os nossos políticos, não fazem política , tomam posições dúbias, mandam às malvas a verticalidade de modo a puderem fazer parte das Bandas. É tudo uma questão de ouvido... já que a música é tilintante.
Voltando à sua " Corrente D'ar ", não julgo estarem em perigo as tradições democráticas ou a falta de valores cívicos . Aquela Amarante cultural dos poetas e pintores , das paisagens e gastronomia, é agora obrigatório juntar a Amarante da música clássica e do bailado, ultimas apostas para uma Amarante multicultural da qual a sua Banda é exemplo de pioneirismo.
Vê-la-emos arruar na sua força máxima na nova avenida para Vila Meã , em sextetos de metais na inauguração de algum novo parque empresarial ou em quartetos de cordas, nas esplanadas da marginal entre o Mercado e a praia Aurora, levando na lapela a coroa e entalada na aba do chapéu a fotografia, a preto e branco, de D.Joao III. Com certeza não faltarão no Largo de S.Gonçalo workshops, dados pelos filarmónicos mais “expert” ,na tentativa de trazer mais apoiantes para a música.

E nesta aposta pela música e espaços culturais, vale a pena refletir no ditado que diz - Conforme se toca, assim se dança.
O meu caro Amigo conhece as bandas e os coretos. As festas grossas são em 2013 e até lá muito se vai tocar....e dançar. Vamos esperar que tudo não acabe com o Presidente da Filarmónica, numa atitude humanitária que lhe vem do mester salvador, de que se ocupa na vida civil, querer ser o mestre da Banda e o agora mestre, aceite, voltar a ser flautim, ainda mais afinado, com grande desespero da família e músicos mais chegados. Recomendo-lhe , a este propósito, para estes dias mais frios o filme - Ensaio de orquestra, de Fellini, onde uma discussão entre um dos músicos e o maestro, severo e ditatorial, é o inicio para uma revolta incontrolável. O caos que se instala é quebrado pela impressionante cena final, uma inserção absurda e deliciosamente felliniana.
Não queria acabar esta longa carta sem referir uma outra situação que nada tendo a ver com Filarmónicas me lembrei.
Aquando da campanha para a presidência dos Estados Unidos em 1960 a campanha de Kennedy , referindo -se a Nixon, fez a seguinte pergunta aos cidadãos eleitores americanos: “Você compraria um carro em segunda mão a este homem?”. Nixon perdeu as eleições .
Imagine o meu Amigo, a " sua " Banda a tocar no coreto e do coreto ao lado, o Maestro da outra Banda, de bigode bem composto e velho nas manhas da regência, puxar os óculos à testa e perguntar à assistência: Vocês acreditam que eles são capazes de tocar um passe- doble?
Deixo à sua imaginação livre a resolução da charada porque, como diz o ditado “A galgo bom não lhe escapam lebres".
Quanto ao meu silêncio , meu caro Amigo, três razões o provocam : é que para lá do mau ouvido , a Banda toca muito mal e como diz o ditado, - Silêncio também é resposta.
. “ …E foi assim, no ambiente romântico de uma noite serena e quente, que terminou o grande dia das tradicionais e faladas Festas da Vila de Amarante. “, dizia o JN do dia 6 de Junho de1949, ao comentar as Festas de Amarante
Aproveito, meu caro Amigo, para lhe desejar um 2012 ... com boas danças.
Com um abraço,
João Sardoeira

NOTA : O texto de H Galvão foi publicado no JN de 5 de Junho de 1949, depois de o Presidente da Assembleia Nacional, Mário de Figueiredo, lhe ter cortado a palavra, declarando o assunto encerrado, na discussão do Aviso Prévio sobre a administração de Angola.
H. Galvão era Inspector Superior da Administração Colonial."

domingo, janeiro 15, 2012

Do Céu Ao Inferno

1Ouvimos muitas vezes dizer que o primeiro ano da vida de um Governo é essencial para a concretização de verdadeiras reformas, dado que se considera que ao fim de algum tempo os governantes perdem a capacidade para fazer frente aos interesses instalados, à pressão da máquina da administração pública e a tudo que a rodeia.

2Esta ideia não deixa de ser um atestado de incompetência e incapacidade ao passado dos nossos governantes. Infelizmente, julgo que todos nos revemos um pouco nela em face do que tem sido a nossa história recente. Muita gente que passou pelos sucessivos governos se deixou amolecer com a passagem pelo poder, muitos deles não fazendo justiça à condição que alcançaram enquanto profissionais na sua área de actividade.

3Pior que isso, colectivamente só adquirimos consciência disso mesmo num momento em que precisamos de auxilio financeiro e vemos entrar em Portugal instituições externas que nos vem ajudar com dinheiro emprestado, exigindo em troca uma série de reformas e de medidas que vão muito além do aspecto financeiro, tocando em áreas tão transversais como a saúde, a educação, a justiça ou a política de transportes.

4Resumindo, em grande parte dos aspectos verdadeiramente importantes na governação de um país, os sucessivos governos falharam. Lentamente, foram conduzindo Portugal a uma situação insustentável e de difícil explicação. Provavelmente tivemos políticos a mais e gestores a menos. E só descobrimos isso pela mão da troika, porque antes não íamos querer acreditar.

5Agora não há margem para falhar. Não porque tenha sido da nossa iniciativa, mas pela iniciativa de quem nos prestou auxílio financeiro, temos um guião para seguir ao pormenor, com medidas quantificadas e temporizadas, as quais terão forçosamente que ser cumpridas, sob pena de deixarmos de receber as sucessivas tranches de dinheiro de que precisamos para manter Portugal à tona da água durante os próximos anos.

6Dá que pensar que apenas numa situação limite fomos capazes, todos nós, de interiorizar que é mesmo preciso mudar de vida. Eleição após eleição, debate após debate, só queríamos ouvir falar de rosas, nunca de espinhos.

7 Mesmo agora, será curioso verificar como vão os vários agentes com intervenção na vida política nacional, dos partidos aos sindicatos, reagir às prometidas medidas para redução da despesa do Estado, que o Governo irá apresentar já depois de escrito este texto. Será curioso também acompanhar o debate a realizar a partir de Outubro, sobre o Orçamento de Estado para 2012. A confirmar-se a já prometida histórica redução na despesa, veremos se alguns de nós vão reagir continuando a pedir o céu e o inferno ao mesmo tempo.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 01 Setembro 2011

Rácio De Transformação

1Segundo os últimos dados revelados pelo Banco de Portugal, os depósitos bancários em Portugal totalizam 125 mil milhões de euros e revelam uma tendência de crescimento ao longo dos últimos meses. Apesar da crise e apesar de todas as dificuldades, o volume dos depósitos tem vindo a subir gradualmente, quer porque os portugueses conseguem poupar algum dinheiro, quer porque a banca tem revelado maior poder de atracção em face das taxas superiores que está a praticar para os depósitos a prazo.

2Por outro lado, o volume de crédito concedido é aproximadamente 250 mil milhões de euros, o que configura um dado absolutamente assustador nos tempos que correm, dado que o volume de crédito é o dobro dos depósitos. Este facto, revelador da absoluta alavancagem do sistema financeiro e da nossa economia, tornou-se agora um problema para os bancos portugueses, obrigados a reduzir drasticamente o rácio de transformação.

3Levando em conta todo o sistema financeiro, o rácio de transformação será de 200%. Se considerarmos apenas os bancos mais importantes do sistema, o rácio de transformação deverá rondar os 150%, isto é, por cada 100 euros em dinheiro depositado nesses bancos, existem 150 euros de crédito concedido.

4Segundo o acordo assinado com a troika, o rácio de transformação terá que ser reduzido até 2013 para o máximo de 120%. Fazendo um exercício simples, se considerarmos que os maiores bancos possuem neste momento uma carteira de depósitos de 100 mil milhões de euros e uma carteira de crédito de 150 mil milhões de euros, o corte no volume de crédito a efectuar poderá atingir o valor de 30 mil milhões de euros num período de pouco mais de um ano.

5Um valor desta natureza é absolutamente assustador e representa em si mesmo um plano de austeridade muito mais forte do que todas as medidas que o Governa possa tomar para emagrecer o Estado. Vai ser por intermédio dos bancos portugueses que vamos sofrer a maior austeridade ao longo dos próximos dois anos, dado que o corte no volume de crédito será terrível para a economia, obrigada a fazer um forte ajustamento para a falta de crédito disponível.

6 É evidente que existem alternativas, essencialmente três, para os bancos ajustarem o seu rácio de transformação. Captar mais depósitos a prazo é um caminho óbvio para o conseguir. Vender activos em carteira, canalizando os rendimentos obtidos para o reforço de capitais, é outra das possibilidades. A última alternativa é reduzir a concessão de crédito novo e estabelecer planos de liquidação exigentes para clientes que já possuem crédito em curso, nomeadamente na área das empresas.

7Todas estas alternativas estão a ser conjugadas e postas em prática. Apesar da dureza dos números, o crédito concedido pela banca portuguesa é na sua grande maioria de boa qualidade, pelo que este cenário de desalavancagem não coloca em causa o sistema bancário português. Pode colocar em causa os seus níveis de rentabilidade no curto ou médio prazo, mas não prejudica a sua estabilidade e fiabilidade.

8 – O que fica em causa é um corte brutal no financiamento, um corte silencioso e pouco mediático, mas com grande impacto. O aumento do desemprego, a retracção no consumo e a diminuição dos níveis de investimento são provocados em larga medida pelo corte no crédito, muito mais do que pela austeridade do Estado. Cabe agora ao Estado fazer o seu plano de emagrecimento, sem recuos nem medo, para que o esforço que famílias e empresas vão fazer não seja destruído a sustentar a pesada máquina pública que carregamos pelas costas.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 25 Agosto 2011

quarta-feira, agosto 24, 2011

Governo Económico

1Ninguém vive sempre sozinho. Em algum momento da nossa vida, por um motivo ou por outro, vamos precisar da ajuda de alguém. De qualquer forma, um dos conselhos mais avisados que podemos receber é o de nunca ficar financeiramente dependente de alguém, porque a dependência financeira é das mais graves faltas de liberdade nos dias de hoje.

2Por causa da crise das dívidas soberanas, uma série de países da zona euro, ou mais pobres ou mais endividados, dependem financeiramente da ajuda e boa vontade de alguns países mais ricos e com economias mais fortes. Como é normal, as dificuldades do euro acabam, mais do que nunca, por trazer para a ordem do dia a dependência entre os vários países que partilham a utilização da moeda.

3E se países como a Alemanha e a França possuem economias fortes e não se encontram endividados para lá do razoável, existem no lado oposto países como Portugal, Grécia, Espanha ou Itália, nos quais há problemas muito sérios para resolver. Toda esta crise veio provar que não é possível que a zona euro continue a ser gerida como até agora, onde cada um puxa para o seu lado. Um governo económico europeu é o caminho a seguir, mesmo que de forma lenta, ao sabor do momento político de cada um dos líderes europeus.

4 Ou melhor dizendo, ao sabor do momento politico que se viva na Alemanha ou na França, dois países que pelo facto de não dependerem económica ou financeiramente de ninguém, lideram o espaço europeu. A recente cimeira entre Merkel e Sarkozi, da qual saiu a proposta para a criação de um governo económico europeu poderá não acalmar os mercados, mas deu frutos ao nível das propostas apresentadas, no sentido em que caso as ideias avancem de facto, serão dados passos importantes no sentido de uma maior integração europeia e por consequência o euro sairá fortalecido.

5Propostas como a inclusão na constituição de um limite do défice, ou alguma abertura demonstrada para uma análise futura da possibilidade da emissão de euro-obrigações, são progressos positivos no sentido de fortalecer a nossa moeda e a solidariedade no espaço europeu. Claro que propostas deste género significam menos soberania nacional e um maior controlo das instituições europeias sobre as decisões de cada um dos países.

6De qualquer forma, o que podemos esperar do futuro a não ser menos soberania? Temos uma moeda única e a actual crise demonstra que o modelo seguido para o euro não é o correcto se não se evoluir no sentido de uma total coordenação da política financeira. Um maior controlo do défice e uma maior integração europeia são passos fundamentais para que países como a Alemanha e a França aceitem continuar a ser fiadores de economias mais frágeis e endividadas. A solidariedade tem um preço.

7Esse preço poderá significar mais austeridade. Porque no essencial o que Merkel e Sarkozi pretendem é que todos sigam padrões de exigência no que respeita aos seus níveis de endividamento, para que as economias mais frágeis e endividadas não coloquem em causa as economias mais fortes, e já agora, mais independentes. O caminho que nos oferecem é o único caminho possível, porque com tanta turbulência e com tanta incerteza dificilmente poderíamos estar mais dependentes do que já estamos.

8 – Para lá do que significa um governo económico europeu, dá que pensar que apenas dois líderes em 27 decidam por si só o futuro de todos. Dá que pensar que a Comissão Europeia já tenha vindo aplaudir as propostas saídas da reunião entre Merkel e Sarkozi. Não porque as propostas sejam más, mas porque tudo isto tem vindo a demonstrar uma falta de liderança assustadora a nível europeu.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 18 Agosto 2011

sábado, agosto 06, 2011

Evoluir Pela Força

1Percebe-se agora, temos vivido em Portugal de forma absolutamente surrealista. Melhor exemplo do que Alberto João Jardim, a defender a sua posição na campanha política em curso na Madeira, não podia existir. Diz Alberto João Jardim que se não fosse o caminho seguido na Madeira ao longo dos últimos anos, leia-se um caminho de investimento baseado num forte aumento do endividamento da região, a Madeira não seria o que é hoje.

2Um argumento desta natureza, mesmo que usado em período de campanha eleitoral, é absolutamente desconcertante. Pior ainda, quando sabendo tudo o que sabemos hoje, poucas dúvidas restam de que o caminho seguido em todo o país foi precisamente esse, um caminho de endividamento excessivo que serviu a projecção de um conjunto de políticas e de políticos.

3 Neste contexto, o acordo com a troika era nada menos que inevitável e por muito que nos custe admitir, absolutamente necessário, em face da incapacidade demonstrada pelo Estado para levar a cabo as reformas necessárias para que Portugal passe a viver de acordo com as suas possibilidades.

4 O acordo com a troika é um verdadeiro programa de governo, com implicações em diversas áreas, embora com carácter economicista subjacente em todas as suas medidas. A sua aplicação vai doer e é bom que estejamos preparados para isso. Vai doer aos portugueses, no seu conjunto, pela forma como nos vai entrar no bolso todos os dias, vai doer a muitos que vão perder o seu emprego, vai doer a muitos que terão que readaptar as suas prioridades e conceitos de vida, nem que seja pela força.

5No campo político, a aplicação do acordo poderá significar uma verdadeira revolução na sociedade portuguesa que alguns partidos terão dificuldade em acompanhar, concretamente o Partido Socialista, se António José Seguro e os demais militantes não adoptarem rapidamente um discurso mais apropriado para a actual situação política e económica.

6Como pode o PS criticar o aumento dos preços nos transportes públicos, quando esse aumento faz parte do acordo assinado pela troika e por um governo socialista? Pretende o PS que se fizesse apenas um aumento minimalista que em nada contribuísse para resolver o défice crónico das empresas de transportes? Pretende o PS que os portugueses que não beneficiam dos transportes públicos em causa continuem a financiar os seus prejuízos brutais, ano após ano?

7 Como pode o PS criticar o negócio feito na venda do BPN, quando foi um governo socialista que abordou de forma absolutamente errada a problemática do banco? Como pode alguém vir criticar o actual Governo pelo facto de a venda implicar a recapitalização do banco em cerca de 500 milhões de euros, quando antes o Estado já injectou cerca de 2.000 milhões de euros no BPN, sem que isso tenha servido para resolver o problema?

8 – Como pode o PS manter a critica de que o actual Governo não corta na despesa como deveria cortar, quando a tomada de posse foi há pouco mais de um mês e quem de facto se revelou incapaz de cortar na despesa foi um Governo socialista ao longo de seis longos anos? O Partido Socialista não pode cair na tentação de defender tudo e o seu contrário, qual Bloco de Esquerda, porque enquanto maior partido da oposição faz parte da solução e não do problema.

9 Num momento em que por força do programa acordado com a troika e também por força da natureza dos partidos que formam a coligação de Governo, Portugal se apresta para ver concretizadas algumas políticas que podem mudar o país tal como o conhecemos hoje, exige-se a todos que não falhem. Devemos exigir aos actores políticos que não desperdicem esta oportunidade de mudança, mantendo velhos hábitos de combate político aos quais os portugueses também devem aprender, definitivamente, a dizer não. Sob pena de continuarmos a evoluir apenas pela força.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 4 Agosto 2011

sexta-feira, agosto 05, 2011

Alavancagem Social

1 – Para mal dos nossos pecados, vivemos desde meados de 2008 debaixo da ameaça constante da crise económica e financeira mundial. Passados praticamente três anos, já não discutimos o súbito aumento do custo das matérias-primas, mas passamos a discutir a dificuldade no acesso ao crédito, como quem finalmente convive com a dura realidade de descobrir que o dinheiro é escasso e a capacidade de endividamento limitada.

2 – Neste momento convivemos cada vez mais de perto com a degradação da situação social de muitas pessoas, a um nível nunca visto desde 2008 e na sequência de todos os acontecimentos ocorridos desde então, os quais, qual efeito dominó, acabaram por resultar numa crise da divida soberana de muitos paises, que arrastou consigo dificuldades no acesso ao crédito, as quais conjugadas com a necessidade de ajustamentos orçamentais fazem prever um cenário de recessão para todo o ano de 2011.

3 – O labirinto em que nos encontramos parece uma pescadinha de rabo na boca. Tome-se como exemplo a informação recente de que o défice das contas públicas em Janeiro foi de “apenas” 282 milhões de euros. Quer dizer, a manter-se a média, chegaremos ao final de 2011 com um prejuizo superior a 3.300 milhões de euros, número que mal sabemos avaliar quanto ao seu significado. Para além de nos financiarmos para conseguir liquidar empréstimos que se vão vencendo sucessivamente ao longo do ano, ainda temos que arranjar pelo menos mais 3.300 milhões de euros emprestados para cobrir o défice com que 2011 vai seguramente terminar.

4 – As razões das dificuldades em que a economia europeia se encontra há muito que estão encontradas. No entanto, pese embora as soluções sejam mais ou menos consensuais, o remédio não pode ser aplicado de forma demasiado rápida, sob pena de colocar em causa todo o sistema social em que vivemos. Vejamos Portugal, onde mesmo com todas as medidas de austeridade anunciadas, percebemos agora que não chegam para quase nada no que respeita à urgente necessidade de impedir que o Estado gaste mais do que aquilo que tem para gastar.

5 – Como consequência, uma vez que o remédio da austeridade não pode ser aplicado demasiado rápido, vamos passar vários anos em tratamento. Mais que o desafio económico e financeiro que tal significa, é o desafio social que mais temos a temer. De um lado, o nosso modelo de sociedade ocidental, que irá padecer de mais desemprego, mais exclusão e mais pobreza, quer sob a forma de pobreza como todos a conhecemos quer sob a forma do crescente empobrecimento da classe média. Do outro, um poderoso mundo árabe e muçulmano, cujas revoltas da Tunisia e Egipto ameaçam alastrar rapidamente para outros paises e encerram em si mesmo um potencial tremendo de transformações sociais, não só nos paises em causa mas também à escala mundial.

6 – Salvaguardando o ideal da democracia que todos defendemos, será que podemos reflectir seriamente sobre as consequências que poderão surgir de uma verdadeira transformação democrática nos paises árabes e muçulmanos? No meio da actual crise económica e financeira ocidental, com todos os sacrificios a que ela nos obriga, estaremos preparados para o impacto de uma transformação económica, social e cultural no mundo árabe, que embora lenta poderá ser verdadeiramente revolucionária?

7 – O equilibrio de forças mundial estará em causa a médio prazo? Os desafios que o mundo ocidental enfrenta neste momento são enormes, não apenas na economia mas sobretudo no aspecto social. O potencial de alavancagem social de vários paises árabes é enorme e poderá colocar em causa vários modelos de desenvolvimento seguidos como intocáveis ao longo de muitos anos.

8 – Tal não significa que teremos forçosamente que mudar todos os nossos paradigmas, mas acarreta consigo uma necessidade de debate politico esclarecedor quanto às opções a tomar daqui para a frente. Infelizmente, parecemos atravessar um periodo de lideranças fracas, desprotegidas do minimo da dose ideológica necessária para nos motivar a todos um verdadeiro debate sobre questões tão essenciais, como o peso do estado na economia ou o modelo de desenvolvimento social a seguir, questões a resolver para mantermos do nosso lado a capacidade de alavancagem social que desde sempre caracterizou o mundo ocidental.

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 24 Fevereiro 2011

Mudar De Vida

1 – Citando um spot publicitário bem conhecido, “ainda sou do tempo” em que não se viam auto-estradas em Portugal. Também “ainda sou do tempo” em que se dizia que estudar na universidade era um luxo, não sendo raros os exemplos de jovens da geração de 70 que foram os primeiros da sua freguesia a frequentar a universidade.

2 – Podiam ser recordados muitos outros exemplos, mas tal não é necessário para constatar que mudou muita coisa ao longo dos últimos 25 anos. E Portugal mudou para melhor, sem dúvida. O modelo de desenvolvimento escolhido na segunda metade da década de 80 e primeira metade da década de 90, permitiu aos portugueses, na sua generalidade, um salto enorme em termos de qualidade de vida.

3 – É certo que tal modelo de desenvolvimento, muito focado nas infra-estruturas, percebe-se agora não ter cuidado devidamente da competitividade da nossa economia a longo prazo. Mas não foram apenas os erros cometidos ao longo do “cavaquismo” os responsáveis por isso. Também a chegada ao poder de António Guterres, verdadeiro “fundador” do que é hoje o monstro do défice do Estado, contribuiu de forma decisiva para a situação em que nos encontramos.

4 – Mau grado as criticas que faziam ao “cavaquismo”, António Guterres e o Partido Socialista mantiveram a aposta nas infra-estruturas, da qual as SCUT não podiam ser melhor exemplo, ao mesmo tempo que apostaram, e bem entenda-se, num forte reforço das politicas sociais no âmbito das preocupações governativas. O problema é que, quer com Cavaco Silva quer com António Guterres, nenhuma das estratégias foi seguida de forma equilibrada.

5 – Como resultado, Portugal tem hoje uma excelente rede de auto-estradas. Como resultado, Portugal tem hoje um bom sistema de apoio social e um sistema de saúde ao nível dos melhores. No entanto, tem uma economia anémica, sem capacidade de crescimento. Não obstante as oportunidades criadas com a massificação do ensino superior, Portugal não tem mão-de-obra suficientemente qualificada e versátil para fazer face à economia global. E pior do que isso, o défice do Estado e a divida pública portuguesa são insustentáveis, porque aquilo que produzimos não é suficiente para sustentar o que temos de bom.

6 – Como resultado, vamos ter que mudar de vida. Enquanto famílias, não aguentamos muito tempo se insistirmos em tomar decisões erradas e nos endividarmos cada vez mais. E é precisamente isso que se tem passado com Portugal, onde o governo de José Sócrates foi incapaz de controlar o défice, sendo até responsável pelo seu agravamento. Enquanto o Estado gastar mais do que aquilo que recebe, haverá sempre défice e haverá sempre endividamento.

7 – Nesta altura, todos falam na necessidade de reduzir o défice e a divida pública portuguesa, mas ainda não se ouve ninguém falar na necessidade de Portugal começar a pagar aquilo que deve. Para termos capacidade de amortizar a enorme divida junto dos mercados só há dois caminhos: ou cortamos a torto e a direito nas despesas do Estado para equilibrar o nosso orçamento, ou conseguimos colocar a nossa economia a crescer a um nível muito superior ao que tem acontecido até ao momento, de forma a aumentar as receitas.

8 – Como pelo lado do crescimento económico as perspectivas não são animadoras, o único caminho possível é o que segue o orçamento de Estado de 2011, cortando radicalmente nas despesas. De forma mais rápida ou de forma mais lenta, vamos ter mesmo que mudar de vida. E não temos muito que contestar, porque se hoje tivermos que sofrer para reduzir o défice e a dívida pública, também não deixa de ser verdade que é graças a esse défice e a essa divida pública que, enquanto comunidade, temos o nível de vida que temos.

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 02 Dezembro 2010

quinta-feira, junho 30, 2011

Gritos

Gritos!

Gritos no silêncio que se criou em redor, como uma força que agarra o espirito e impede a revolta.

Gritos pela liberdade de um caminho conhecido, invisível para todos, incompreensível para os outros, mas que se tornou no único possível.

O barulho confunde por dias a constante absoluta de silêncio.

Soltam-se desejos no meio de uma pequena praça, num banco de jardim próximo de guitarras que tocam para gente indiferente, perdida num frenesim de passos sem rumo a caminho do mar. Os dias passam e o barulho persiste, num encanto ilusório da realidade, aquela que emerge diante dos olhos mas não fala ao coração.

Quando parece não haver estrelas no céu é bom olhar e encontrar uma única, num brilho diferente de todas as outras, cujo destino é traçado por palavras distantes.

Gritos, pela realidade de aspirar a viver num outro tempo, mais tardio, mais livre, sem laços que apertam a alma.

Finalmente, a estrela fica ao alcance de um beijo, de um carinho. Subitamente, mais barulho, uma confusão incrível de sentidos, longe da prisão que reina no silêncio. Sitio aconchegado por pequenos desejos, uma ilha deserta  e encantada, no meio do nada.

Nasce o dia, a estrela esmorece lentamente num horizonte cada vez mais claro, onde a luz surge cheia de força, com tanta força, que o silêncio parece de novo o único caminho possível, como se o novo dia fosse um doloroso acordar assim que acaba o barulho.

Regressa a calma.

Cortam-se amarras que seguravam os desejos pedidos, de novo tão distantes.

Silêncio.

Agora, junto com um vazio que fica.

terça-feira, outubro 05, 2010

Terceira Via

1 Agosto, mês tradicionalmente calmo, acabou por ser bastante animado no que à política amarantina diz respeito, por causa de quatro entrevistas publicadas nos órgãos de comunicação social de Amarante, nomeadamente do Dr. Abel Afonso, ex-presidente do PSD Amarante, do engenheiro Jorge Mendes, actual vereador do PSD, do Dr. Abel Coelho, vereador do PS e da Dr.ª Ercília Costa, líder do PS Amarante.

2As entrevistas revelam pontos de interesse diferentes, mas a sua análise final demonstra bem as clivagens existentes em Amarante e as diferenças de perspectiva entre os dois principais partidos do concelho, as quais não são mais do que as mesmas de sempre.

3A entrevista do Dr. Abel Afonso, transmitida na Amarante TV, é, por várias razões, absolutamente demolidora. Não só porque, bem vistas as coisas, coloca em causa tudo o que tem sido a estratégia do PSD ao longo dos últimos 10 anos, desde a estratégia política à estratégia eleitoral, mas também porque é por si só reveladora da necessidade e oportunidade que o PSD de Amarante tem presentemente de se “refundar” numa terceira via.

4 Uma terceira via que permita oferecer a Amarante novos pontos de vista, novas estratégias de desenvolvimento, e que tenha a capacidade de mobilizar rostos com provas dadas na vida profissional e autárquica, desde sempre próximos do partido, mas que nunca tiveram oportunidade de assumir responsabilidades de liderança política. O PSD não pode manter por muito mais tempo pontos de vista e programas eleitorais que são sucessivamente derrotados desde as eleições autárquicas de 2001, aos quais os seus militantes e simpatizantes se tem vindo sucessivamente a agregar, alguns deles sem coragem de os colocar em causa ou de os contestar, naquilo que parece ser um exercício de calculismo absolutamente intolerável.

5E nem a aparente letargia do PS deve criar nas restantes forças políticas a ideia de que o ciclo socialista se aproxima do fim. A entrevista ao Jornal de Amarante do Dr. Abel Coelho não é mais do que a reafirmação daquilo que o PS tem vindo a defender para Amarante ao longo dos últimos anos. A entrevista da Dr.ª Ercília Costa, apesar da aparente tentativa de refrescar a imagem socialista, não contém mais do que a defesa da política que Armindo Abreu tem seguido enquanto Presidente de Câmara. Mas apesar de ser mais ou menos consensual que os amarantinos há muito procuram uma alternativa de mudança, não é menos verdade que nunca ao longo dos últimos anos confiaram noutro partido que não o Partido Socialista.

6Por muitos ou poucos votos, mais Junta de Freguesia menos Junta de Freguesia, há demasiados anos que é o PS a ganhar, sinal de que por muita bondade que tenham as propostas alternativas, elas precisam de ser revistas e melhoradas, já que é muito pouco provável que rebatendo as mesmas propostas e os mesmos pontos de vista ao longo de mais de 10 anos, alguém consiga chegar de derrota em derrota até à vitória final.

7Sinceramente, desde a questão do corte do trânsito no Largo de São Gonçalo, passando pelo debate em torno da Barragem de Fridão, não pode haver melhor espelho do que tem sido o debate político em Amarante. De um lado o PS, com uma visão que se admite estruturada mas muito pouca ambiciosa. Do outro o PSD, com uma visão que se admite ambiciosa mas muito pouco estruturada.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante

O Sexo Dos Anjos

1 Não raras vezes, o debate político aproxima-se bastante de um simples debate acerca do sexo dos anjos. E só a muito custo alguns debates sobre assuntos particularmente importantes passam da fase da discussão estéril e inútil para a fase da discussão séria e proveitosa para todos.

2O interminável debate sobre as SCUT é o último exemplo. Neste momento ainda não sabemos como a novela vai acabar, mas pelo menos a posição do PSD nesta matéria já obrigou o Governo a recuar da sua posição inicial, permitindo assim que discussão sobre o tema esteja centrada numa questão essencial: a justiça na cobrança das portagens em Portugal.

3Porque haveríamos de andar a discutir a cobrança de portagens apenas nas SCUT do norte, quando é por demais evidente que a única justiça possível é que todos paguem? E depois de, por força da posição do PSD, ser consensual que todos devem pagar, porque haveríamos de andar a discutir a isenção do pagamento de portagens para determinados concelhos, quando é óbvio que aquilo que faz sentido é uma discriminação positiva e não a isenção no pagamento de portagens?

4 Se calhar, a verdadeira intenção do PS, dentro da sua estratégia permanente de cuidados mediáticos, era não situar o debate na injustiça gritante que foi a decisão de criação das SCUT. Será que faz sentido os habitantes de concelhos como Vila do Conde, Póvoa de Varzim ou Viana do Castelo poderem viajar até ao Porto sem pagar, em estradas de excelente qualidade, quando por exemplo as pessoas de Amarante sempre pagaram portagem?

5Para quem é de Amarante e conhece minimamente zonas como as de Vila do Conde, Póvoa de Varzim ou Viana do Castelo, tem dificuldade em aceitar que esses concelhos possam usufruir de uma vantagem que Amarante não pode alcançar.

6Felizmente, e reconheça-se com grande mérito do PSD, o debate sobre as SCUT deixou de ser o debate sobre o sexo dos anjos e passou a ser um debate a sério. Por causa desse debate, e de acordo com as últimas propostas conhecidas, a discriminação positiva vai ser uma realidade, sendo uma janela de oportunidade para corrigir as muitas injustiças que as SCUT vieram provocar.

7E seja qual for o critério escolhido para que os habitantes de alguns concelhos beneficiem de descontos no pagamento de portagens, é praticamente certo que Amarante vai constar da lista que será alvo da discriminação positiva. Convenhamos que isso não resolverá os problemas de Amarante, mas numa altura em que os agentes políticos locais parecem incapazes de dar um novo impulso ao nosso concelho, ao menos as questões nacionais para nos darem um pequeno proveito.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante

Cidades Do Futuro

1 No âmbito das Conferências Fórum Amarante XXI realizou-se no passado fim-de-semana um encontro em Amarante em que se falou sobre as cidades, a sua evolução ao longo dos tempos, o seu impacto na vida das pessoas e as consequências que o desenvolvimento das cidades tem vindo a provocar.

2No mesmo fim-de-semana surgiram notícias em vários jornais, dando conta que no Porto foram encontrados os corpos de 3 pessoas, as quais viviam dentro dos limites da cidade, sem apoio de família ou amigos e aparentemente acompanhados pouco de perto pela assistência social.

3Voltando à conferência do Fórum Amarante XXI, D. Manuel Clemente, Bispo do Porto e um dos oradores do encontro, disse a determinada altura mais ou menos isto: “hoje as pessoas juntam-se em grandes eventos e grandes espaços públicos, mas quase sempre numa perspectiva consumista ou de divertimento, de que são exemplo as idas ao centro comercial ou ao futebol.”

4De facto, e mesmo procurando não ser pessimista, aqueles que se lembram das cada vez mais antigas relações de vizinhança entre as pessoas, vividas nas aldeias mas também nas cidades de outros tempos, acharão a realidade de hoje bastante assustadora. Paralelamente com outros aspectos de desenvolvimento da nossa sociedade, a evolução urbanística também tem vindo a ajudar a um individualismo cada vez maior no modo de vida quotidiano.

5É assustador pensar que podem morrer pessoas dentro das nossas cidades e que demoramos vários dias até descobrir os seus corpos. É assustador pensar que é possível alguém falecer no local de trabalho, como aconteceu nos EUA, tendo demorado vários dias até que os colegas de trabalho se apercebessem do facto.

6Os desafios que se colocam aos decisores políticos são enormes. As políticas de urbanismo e de organização territorial actuais levam muito pouco em conta as implicações que provocam na vida das pessoas ao nível do seu relacionamento em comunidade. As próprias políticas sectoriais, como a de educação e saúde, favorecem a litoralização do país e uma maior concentração das pessoas nas grandes cidades.

7Encerramos escolas com menos de 20 alunos. Encerramos serviços de saúde por questões de racionalização de recursos. Num e noutro caso, a qualidade da educação ou a qualidade dos serviços de saúde pode até melhorar, mas a distância da nossa terra e do nosso núcleo de amigos e vizinhos aumenta cada vez mais à medida que estudamos longe de casa ou somos curados longe do sítio onde gostamos de estar. Precisamos que a cidade do futuro seja feita de uma maior coordenação entre as várias políticas sectoriais e a política de cidade.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante

terça-feira, junho 08, 2010

Meias Medidas

1Por força das constantes alterações vividas ao longo das últimas semanas, bem como de uma necessidade europeia urgente em dar claramente um sinal de força aos mercados, Portugal e Espanha viram-se obrigados a corrigir os seus planos de redução do défice público e apresentar medidas adicionais destinadas a recuperar rapidamente as finanças de cada um dos países.

2Como de costume ao longo dos últimos anos, a atitude espanhola foi mais firme e decidida do que a portuguesa. Enquanto em Portugal a medida com maiores efeitos imediatos se traduz no aumento do IVA, em Espanha a medida mais emblemática reduziu de imediato os salários de todos os funcionários públicos em 5%.

3 Portugal ataca o problema pelo lado da receita. Espanha ataca o problema especialmente pelo lado da despesa. Assim, Portugal adia parcialmente a resolução a fundo dos seus problemas, enquanto a Espanha toma a dianteira, ataca o problema de frente e ganha vantagem.

4Por muito que queiramos cortar a despesa do Estado, iremos sempre ter ao mesmo problema: as despesas fixas são enormes e de entre elas a maior é a despesa com pessoal. Portanto, só atacando seriamente a questão das despesas com os recursos humanos do Estado será possível corrigir as contas públicas de forma eficiente, duradoura e definitiva.

5Podemos discutir se a redução dos ordenados de todos os funcionários da função pública será uma opção correcta. Há até quem defenda que, afinal, a Constituição Portuguesa não proíbe os despedimentos na função pública, pelo que esse instrumento poderia ser uma solução. Outros defendem que os despedimentos não são solução, mas as rescisões de contrato por mútuo acordo já o seriam.

6De qualquer forma, sem mexer nas despesas com pessoal dificilmente Portugal irá reduzir o seu défice de forma consistente, pelo que alguma coisa terá que ser feita ou em alternativa andaremos sempre a alterar a carga fiscal, sobrecarregando as pessoas e as empresas. Porque não pedir sacrifícios às pessoas mas paralelamente investir a sério na modernização administrativa do Estado em termos de hardware e software? Porque não pedir sacrifícios às pessoas mas paralelamente adoptar políticas que permitam que a administração pública seja mais eficiente e capaz de produzir mais com menos recursos?

7O Estado é das poucas entidades conhecidas que regista prejuízos anos após ano e segue alegremente sem fazer nada para resolver o problema. A título de exemplo, as entidades bancárias portuguesas conseguiram ao longo dos últimos 15 anos reduzir drasticamente o número de funcionários e aumentar exponencialmente a sua produtividade. E fizeram isso sem ter que despedir. O Estado, se existir vontade política para abandonar as meias medidas, não será capaz de fazer o mesmo?

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 26 Maio 2010

terça-feira, maio 04, 2010

Momentos De Liderança

1Mais do que a capacidade própria de uma organização, é a liderança dessa mesma organização que define o seu sucesso. Todos conhecemos grandes clubes de futebol com bons e maus líderes ao longo do tempo. Todos conhecemos grandes empresas com bons e maus líderes ao longo da sua existência. Todos conhecemos grandes países com fases distintas ao longo do tempo. Todos seremos capazes de recordar partidos políticos que vão do céu ao inferno de acordo com a capacidade do seu líder de momento.

2Se todas as organizações possuem virtudes próprias que fazem com que tenham grande potencial intrínseco, apenas os líderes, os bons líderes, são capazes de aproveitar esse potencial. Por isso, o momento em que chega ao fim um ciclo de liderança é sempre uma altura crucial na vida de qualquer estrutura. É nesse momento que se pode verificar verdadeiramente se o líder que acaba o seu ciclo foi capaz de engrandecer a sua organização, preparando pessoas e a estrutura para o futuro.

3 A propósito, julgo que o PS de Amarante, onde ocorreu recentemente a eleição de uma nova liderança, passa precisamente por uma fase de transição, ou se quisermos, pelo fim de um ciclo, que marcou para o bem e para o mal o próprio Partido Socialista e também Amarante no seu todo.

4Para quem está bastante afastado da área do PS de Amarante mas acompanha com natural interesse o fenómeno político, não pode deixar de registar com curiosidade o facto de a nova liderança ter obtido a vitória contra uma lista que incluía os actuais vereadores socialistas da Câmara Municipal de Amarante, alcançando uma vitória aparentemente contra a corrente dominante no partido.

5Fazendo justiça ao Partido Socialista de Amarante, é justo reconhecer que o processo eleitoral, embora não disfarçando as actuais divisões no seio do PS, decorreu de forma correcta. Assim como será justo reconhecer que o afastamento de Armindo Abreu da liderança surge na altura certa para que o partido tenha todo o tempo de preparação para o futuro.

6No momento político actual o PS dá o exemplo de preparação para o futuro. E Armindo Abreu demonstra lucidez suficiente, própria de um líder. Cabe agora aos outros partidos, nomeadamente ao PSD, reflectirem profundamente sobre o seu futuro, sobre as ideias e projectos para Amarante e sobre os rostos capazes de darem corpo às naturais ambições do partido para Amarante.

7As reflexões sobre a liderança não podem ser inócuas para o PSD. Os líderes são feitos de presente e futuro, mas também de provas dadas e testadas. As ambições partidárias devem ter por base projectos concretos e os líderes de um partido devem forçosamente ter capacidade para os explicar ao eleitorado. Sem se esquecer que gravita em torno dos mesmos rostos há mais de 10 anos, o PSD de Amarante tem de reflectir profundamente o seu futuro.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 22 Abril 2010

sábado, abril 24, 2010

Mudar

1No próximo fim-de-semana realiza-se o congresso do PSD, na conclusão do processo eleitoral que conduziu Pedro Passos Coelho a uma vitória que legitima totalmente a sua liderança. Com uma percentagem superior a 60%, numas eleições disputadas com quatro candidatos, Pedro Passos Coelho tem finalmente a oportunidade de liderar o PSD com toda a liberdade de quem foi eleito de forma indiscutível.

2Para além desse aspecto positivo, as eleições internas tiveram também a virtude dos seus protagonistas serem, em termos gerais, pessoas algo “desligadas” do passado do partido. É evidente que nenhum dos candidatos era um absoluto desconhecido de quem se interesse pelo fenómeno político, mas pelo menos, desta vez, não foram barões a concorrer para a liderança do partido.

3 E para o PSD, nada melhor do que uma lufada de ar fresco nos seus rostos. Claro que agora falta conhecer em mais pormenor as ideias para Portugal do líder eleito e verificar o prometido comportamento dos candidatos derrotados de apoio e cooperação com a nova liderança. Mas o clima em que decorreram as eleições internas foi globalmente positivo e permite ao PSD olhar para o futuro mais preocupado com o país do que com as suas lutas internas.

4De alguma forma, pelo menos no trajecto até ao momento, Pedro Passos Coelho representa um corte com uma certa forma de estar no PSD. Ainda há no partido alguns ilustres intelectuais que se julgam superiores em tudo o que dizem ou fazem. E que mesmo passando pela sua carreira política com erro atrás de erro, julgam até ao fim ser os donos da verdade.

5Falta agora verificar se o poder permitirá a Pedro Passos Coelho cumprir a sua principal promessa: Mudar. Porque está à vista de todos que o PSD precisa de mudar. Para já, mudou a liderança nacional com a promessa de um corte com o passado que permita ao partido reconfigurar-se e libertar-se de velhas ideias e poderes instalados.

6No futuro, a seu tempo, espera-se que o Partido Social Democrata, desde o âmbito nacional ao local, seja capaz de acolher novos rostos. Novos não necessariamente na idade, entenda-se.

7Novos na atitude, novos no comportamento, novos na capacidade de abrir o partido à sociedade civil, novos na capacidade de atrair gente mais capaz e menos interessada em lugares. Novos, que sejam capazes de dar ao partido o essencial que lhe tem faltado: definir uma estratégia que as pessoas percebam tratar-se de algo que vai para lá da simples conquista do poder pelo poder.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 8 Abril 2010

sábado, abril 03, 2010

Rating Do Futuro

1O rating não é mais do que uma opinião sobre a capacidade e vontade de uma entidade vir a cumprir de forma atempada e na íntegra determinadas responsabilidades. Desta forma, todos temos o nosso rating. A começar pelo Estado, passando pelas empresas, até chegar a cada um de nós, todos somos classificados com base no nosso rating, mesmo que não estejamos conscientes disso.

2Quem atribui o rating são as famosas empresas de rating, contra as quais o Ministro das Finanças se insurgiu recentemente por terem diminuído o rating do Estado português, ou seja, por terem considerado que aumentou o risco de Portugal não ser capaz de pagar aquilo que deve. A atitude de Teixeira dos Santos tem óbvia razão de ser, dado que uma diminuição da notação de rating provoca imediatamente o aumento do custo de financiamento do Estado português e por consequência um aumento no custo dos empréstimos de todos os portugueses.

3Como se depreende, o poder das agências de rating é enorme. Mas depois de terem falhado redondamente e estarem entre os responsáveis da crise que atravessamos, porque razão continua tudo como antes, mantendo as agências de rating um poder brutal sobre a economia e finanças mundiais? Basicamente, a resposta a esta pergunta encontra-se no facto de todos terem falhado.

4Antes das agências da rating, falharam os governos, falharam as entidades reguladoras e de supervisão e falharam as instituições financeiras. Por isso é que aparentemente continua tudo como antes. Numa primeira fase todos se queixaram das agências de rating, responsabilizando-as pela crise, mas tal facto tratou-se apenas de uma manobra política para encobrir responsabilidades, porque tal qual está montado o sistema, não pode viver sem elas.

5E não passa sem elas, porque a tarefa de analisar o rating de países, empresas e particulares pelo mundo fora é uma tarefa gigantesca. Só entidades com grande poder de organização e de trabalho conseguem ter uma visão do mercado capaz de descansar os investidores.

6Quando um Estado ou uma empresa pede dinheiro emprestado no mercado, os investidores disponíveis para emprestar esse dinheiro não possuem, por si só, capacidade para analisar o risco subjacente ao empréstimo, pelo que a única forma de estarem relativamente seguros do seu dinheiro é basearem-se na opinião das agências de rating.

7Aparentemente, parece que as empresas de rating passaram pela tempestade da crise económica conseguindo o feito incrível de não se terem molhado um pouco que seja. Em grande medida, todos continuamos a depender da sua opinião, da sua visão da realidade, da sua capacidade de prever o futuro. O rating do futuro é igual ao rating no passado.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 11 Março 2010

sábado, fevereiro 20, 2010

Investimento Ou Despesa?

1A Câmara Municipal de Amarante aprovou recentemente a concretização de um empréstimo bancário no valor de 7.300.000 euros, com o objectivo de financiar várias obras, nomeadamente relacionadas com sistemas de abastecimento de água e drenagem de águas residuais, construção de centros escolares, requalificação urbana e execução de obras nos Estádios Municipais de Amarante e Vila Meã.

2Do empréstimo de 7.300.000 euros, 3.000.000 euros destinam-se a obras para sistemas de abastecimento de água e drenagem de águas residuais em várias freguesias, com destaque para Telões e Vila Garcia. Esta fatia de investimento é a mais signficativa na lista de obras a realizar e será, paralelamente com os 1.900.000 euros a investir nos centros escolares da Madalena/Lufrei, Vila Garcia/Gatão/Chapa/Aboim e Travanca, o investimento mais incontestado.

3 - Mas do empréstimo a contrair salta à vista um valor tido como despropositado para quem se opõem à forma de gestão de Amarante levada a cabo pelo PS. Amarante vai-se endividar em 2.000.000 euros na requalificação do campo de treinos do Estádio Municipal de Amarante e na execução do relvado sintético do Estádio Municipal de Vila Meã.

4Num momento em que o Dr. Armindo Abreu nem um simples protocolo diz ter possibilidade de proporcionar às Juntas de Freguesia, reduzindo o orçamento de cada uma delas à simples gestão corrente, Amarante vai contrair um empréstimo que, entre alguns investimentos importantes, servirá também para gastar 2.000.000 euros em campos de futebol, algo que, de todo, não parece decisivo neste momento para nenhum municipio.

5Se as obras de abastecimento de água e construção de centros escolares são, de facto, um investimento produtivo e importante para o futuro, gastar 2.000.000 euros em campos de futebol não é investimento mas sim despesa. E se a opção é gastar dinheiro a fomentar a prática desportiva, não seria preferível construir zonas desportivas que permitam a prática desportiva à generalidade da população, em vez de gastar esse dinheiro a investir em espaços utilizados por uma minoria dos amarantinos?

6Quer queiramos quer não, por muito importantes ou mediáticas que sejam as minorias, elas não deixam de ser simplesmente isso: minorias. E as decisões politicas devem levar isso em linha de conta. Quando as necessidades de espaços de prática desportiva para a generalidade da população estivessem satisfeitas, gastar 2.000.000 euros nos estádios municipais seria um investimento. Até lá é uma despesa que beneficia uma minoria da população e prejudica, por omissão, todos os outros.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 11 Fevereiro 2010

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Usos E Costumes

1Em edição recente do Diário de Noticias surgiu um apontamento sobre a visita à China de Guido Westerwelle, número dois do Governo alemão. A razão prendia-se com o facto de Guido Westerwelle ser homossexual e ter levado o seu companheiro na viagem, o qual apresentou aos mais altos responsáveis chineses e alemães presentes nos actos oficiais da visita.

2A reflexão sobre o conteudo da noticia surge forçosamente ligada à recente discussão em Portugal acerca do casamento homossexual. De facto, a sociedade tem evoluido de forma avassaladora ao longo dos últimos 20 ou 30 anos, de tal forma que hoje se tornam possíveis situações absolutamente impensáveis há alguns anos atrás.

3 - Embora julgue que com referendo o casamento homossexual não seria uma realidade em Portugal, parece um facto concreto afirmar que a sociedade portuguesa, afinal, e contra muitas expectativas, está minimamente preparada para assimilar políticas socialmente mais vanguardistas.

4No caso de realização de um referendo, e embora correndo o risco de aplicar o senso comum de forma algo displicente, arrisco dizer que os nossos avós votariam massivamente contra o casamento homossexual, nós votariamos divididos entre o sim e o não e os nossos filhos, se pudessem votar, votariam maioritariamente sim.

5Podemos não vislumbrar as razões que levam a que, de geração para geração, tudo tenha evoluido tão rapidamente. Mas atentos ao que se passa hoje, ao comportamento das pessoas nas relações com os outros, à forma como evolui a “emancipação” adolescente nos seus mais diversos aspectos, ao clima que se vive nas redes sociais, ou a muitas outras vertentes, percebe-se que o caminho do total respeito pela liberdade individual de cada um é irreversível.

6Por isso é que o casamento homossexual e mais a seu tempo a adopção por casais do mesmo sexo, acabarão por tornar-se uma realidade global em Portugal e na maior parte dos paises mundiais. A evolução vai no sentido de um maior respeito pela liberdade e auto-determinação de cada um, embora esse respeito, de forma parodoxal, se revele através de uma maior indiferença pelos outros e pelo que nos rodeia.

7Se essa indiferença corresponde a uma crise de valores da sociedade actual, julgo sinceramente que não. Passei pela escola, do início até ao fim, a ouvir repetir a máxima de que “a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros”. Pelos vistos, a máxima está a ser posta em prática. Uma atitude como a de Guido Westerwelle demonstra que no que toca a usos e costumes nunca fica pedra sobre pedra.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 21 Janeiro 2010

segunda-feira, janeiro 25, 2010

2010

1Olhar para tudo o que se passou em 2009 pode assustar. Não falamos de outra coisa a não ser da crise, das dificuldades de acesso ao crédito, de endividamento excessivo, de recessão económica, da queda dos mercados, do desemprego e de muitas outras questões capazes de nos deprimir de imediato.

2Para lá das questões económicas, o ano também foi marcado por eleições autárquicas e legislativas e, nesta parte final do ano, por um arranque tímido no que se relaciona com as próximas eleições presidenciais.

3Em termos económicos assistimos durante 2009 a uma ténue recuperação da confiança perdida em 2008 e a uma estabilização, embora aparentemente relativa e de pouca expressão, no que respeita aos indicadores de crescimento económico. De facto, parece que o pior já passou, restando saber se em 2010 se vai confirmar a estabilização económica, se vamos ter alguma recuperação, ou se, pelo contrário, ainda vamos sofrer alguma recaída semelhante ao que aconteceu em 2008.

4Como se costuma dizer muitas vezes, previsões só no final do jogo. Nem os maiores economistas mundiais arriscam grandes previsões quanto ao futuro, tal a imprevisibilidade do que poderá acontecer. Se já não tinha perdido antes, a ciência económica perdeu agora de uma vez por todas a aura que poderia ter de ciência exacta. A economia é imprevisível. E já agora, também imprevisíveis, embora pagas a peso de ouro, são as previsões dos melhores especialistas. Como tal, o melhor é esperar para ver como será 2010. Prudência é a palavra de ordem.

5Politicamente, quase haverá a tentação de dizer que continua tudo na mesma. O PS e Sócrates continuam no poder, tentando desesperadamente o impossível, ou seja manter a mesma política e o mesmo comportamento que tinham enquanto governavam com maioria absoluta. Como já podemos verificar pelos últimos acontecimentos, é óbvio que não continua tudo na mesma.

6Os socialistas terão forçosamente de adoptar uma nova atitude, que passe por um maior respeito pela Assembleia da República, porque se o Governo é eleito para governar, também é verdade que a Assembleia da Republica tem tanta legitimidade como o Governo para actuar dentro das suas competências, devidamente previstas na lei. Quem tem que se adaptar é o Governo, não a Assembleia da República. Algo para acompanhar em 2010.

7Também para acompanhar em 2010 será o comportamento do PS e de José Sócrates para com Cavaco Silva. As últimas semanas têm sido férteis em tiradas bastante infelizes em relação ao Presidente da República, como se os socialistas queiram comprar uma guerra sem qualquer razão visível e aparente. Realmente, o ano de 2009 tem sido muito confuso. Um bom 2010 para todos.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 7 Janeiro 2010

terça-feira, janeiro 05, 2010

Orçamento Participativo

1Inspirado num programa de apoio comunitário, tem vindo a ganhar terreno em Portugal a idéia do Orçamento Participativo. Em traços gerais, esta idéia mais não é do que permitir aos cidadãos participarem directamente na elaboração do orçamento anual da sua Junta de Freguesia ou Câmara Municipal, escolhendo obras e projectos concretos a realizar.

2Tal não significa que sejam os cidadãos a decidir o destino da totalidade do orçamento da sua autarquia, porque se assim fosse o projecto do Orçamento Participativo estaria a pôr em causa os próprios resultados eleitorais e as estratégias legitimadas. No entanto, a participação dos cidadãos pode atingir níveis bastante interessantes, bastando para isso ter em atenção o exemplo de Lisboa, municipio que prevê destinar 5 milhões de euros do orçamento de 2010 a este programa, permitindo às pessoas decidir o destino desse dinheiro.

3 - O exemplo de Lisboa é o mais emblemático em Portugal, mas numa escala mais reduzida há já várias Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais que adoptaram a idéia como forma de permitir uma maior participação das pessoas nas decisões. Para além do sinal de abertura que o Orçamento Participativo significa, é também uma medida prática que aproxima os eleitores dos eleitos, e aproxima da realidade os responsáveis pela tomada de decisões.

4E embora a fatia do orçamento disponivel para os cidadãos possa não ser muito expressiva, imagine-se o que seria cada um de nós poder escolher uma determinada obra para a nossa cidade ou escolher que caminho pavimentar na nossa freguesia. Por pouco que seja, significaria muito. De facto, o Orçamento Participativo pode ser uma excelente idéia se aplicada com conta, peso e medida.

5Em Amarante ainda não existe Orçamento Participativo, mas nos últimos anos, através dos protocolos celebrados entre a Câmara Municipal e as Juntas de Freguesia, tem sido possível aproximar de alguma forma as decisões das pessoas que delas beneficiam, garantindo uma aplicação do dinheiro que não foge das estratégias decididas pela Câmara Municipal e ao mesmo tempo permite uma maior satisfação aos eleitores.

6Por isso, depois de vários anos em que se esses protocolos existiram, não é razoável permitir que o orçamento de 2010 não os contemple novamente. Se tal acontecer, qualquer dia fazemos todos a apologia da governação em minoria, porque em Amarante, quando não existe uma maioria de um só partido na Câmara Municipal fazem-se protocolos com as Juntas de Freguesia, enquanto quando existe maioria a regra é que esses protocolos não se façam.

7A regra é que não se façam ou que sejam assinados de forma algo discricionária, de acordo com as simpatias do poder ou da capacidade de influência de cada Junta de Freguesia. Pelo menos para já, os protocolos entre a Câmara Municipal e as Juntas de Freguesia são o melhor orçamento participativo para Amarante. Oxalá não passem a fazer parte do passado.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 17 Dezembro 2009