domingo, agosto 23, 2009

Défice Democrático

1Muitas vezes só nos apercebemos da realidade quando a vivemos mais de perto, na primeira pessoa. Não raras vezes ouvimos falar em “défice democrático”. Trata-se de um conceito abrangente e que pode resultar de muitas coisas, mas que em princípio significa que em determinado momento as regras básicas da democracia não estão a ser cumpridas.

2Obviamente, o principal responsável é sempre o poder instalado. Mas todos temos responsabilidades na defesa da democracia, quando sentimos que ela não está a ser respeitada. Quando sentimos que as pessoas têm receio em expressar a sua opinião devemos levantar a nossa voz, de acordo com as nossas possibilidades.

3Em alturas eleitorais como a que estamos a atravessar, os constrangimentos democráticos tornam-se mais evidentes. Há os actuais presidentes de junta, novamente candidatos a mais um mandato, que ao saberem de alguém da sua freguesia que se prepara para integrar uma lista opositora, não hesitam em pegar no telefone e fazer ameaças mais ou menos indiscretas, apenas porque alguém, de forma democrática e exercendo o seu direito ao espírito crítico, decide assumir uma posição oposta.

4Tornam-se públicas ofertas a membros dos órgãos sociais de associações culturais, sociais ou desportivas. Promete-se que em troca da presença em determinada lista a associação irá beneficiar de atenção necessária para ver concretizados alguns desejos, coisas básicas para o seu funcionamento, e que tendo em conta a importância que o movimento associativo tem em Amarante, deveriam estar asseguradas independentemente da posição política de alguns dos membros dos seus corpos sociais.

5Cobram-se favores, quando as pessoas que beneficiaram de um trabalho, de um estágio, de uma formação, de uma ocupação, o fizeram por direito próprio ao acesso aos serviços públicos proporcionados pela gestão autárquica de uma freguesia ou de um concelho. No fim, sente-se um medo democrático a pairar sobre as pessoas e sobre as instituições. Como resultado, muitos preferem não dar a cara, dizer que sim a todos, com medo de serem prejudicados por assumirem as suas ideias.

6Depois há ainda aqueles que assumem sem qualquer pudor as suas opções, mas da forma mais anti-democrática possível. Recentemente avistei um cartaz de promoção de uma festa popular organizada por um rancho folclórico do nosso concelho. No cartaz está uma fotografia do rancho com várias outras pessoas, entre as quais os candidatos do PS Armindo Abreu e Celso Freitas. Mais folclore e mais subserviência era impossível.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 13 Agosto 2009

Duplas Oportunidades

1Especialmente por causa da candidatura de Elisa Ferreira ao Porto, o PS mergulhou numa discussão interna quanto às duplas candidaturas. Elisa Ferreira é candidata a Presidente de Câmara do Porto quando já foi eleita deputada europeia em Junho. Promete renunciar ao mandato europeu apenas no caso de vencer as eleições autárquicas.

2Rui Rio deve estar satisfeito com a candidatura de Elisa Ferreira. Depois do sinal que os portuenses deram em 2001, ao derrotar de forma inesperada Fernando Gomes, como pode o PS pensar que a dupla candidatura de Elisa Ferreira seria bem vista na Cidade Invicta?

3 - Tal candidatura não é bem vista pelos portuenses nem pela própria estrutura concelhia do PS do Porto, ainda para mais fazendo Elisa Ferreira questão de apregoar a sua condição de independente para todos que a queiram ouvir. Obviamente, os socialistas do Porto esperavam más sondagens para começar a pôr em causa a candidatura, o que juntamente com a polémica interna no PS quanto às duplas candidaturas já destinou Rui Rio a uma vitória anunciada.

4De forma inesperada, José Sócrates tem conduzido o seu partido de forma trapalhona nos últimos meses. A derrota nas europeias provocou um abalo tão forte, que nada parece ser como antes para Sócrates. Mas verdade seja dita, Manuela Ferreira Leite, pese embora todas as dificuldades por demais conhecidas, tem contribuido muito para atrapalhar os socialistas.

5Ao estipular o principio de impedir duplas candidaturas no PSD, Manuela Ferreira Leite conseguiu marcar uma posição importante perante o eleitorado e obrigou o PS a copiar o PSD. Mas infelizmente para o PS, a cópia nunca sai conforme o original. E se muitos socialistas estão de acordo que o PS faça o mesmo que o PSD, como é o caso de Manuel Alegre, muitos outros estão completamente contra e ao contrário do que é habitual, José Sócrates não consegue calar essas vozes tresmalhadas.

6Sónia Sanfona, acabada de prestar um serviço ao Governo e ao PS no caso da Comissão de Inquérito ao caso BPN, candidata autárquica socialista em Alpiarça, já fez saber que a opção de impedir duplas candidaturas devia ter sido tomada bastante mais cedo. Depreende-se que caso Sónia Sanfona soubesse mais cedo das circunstâncias actuais, provavelmente não arriscaria ser candidata em Alpiarça, preferindo antes manter-se como deputada.

7São as tais duplas oportunidades que tem permitido aos partidos gerir sensibilidades internas, mas que também provocam uma crescente dificuldade na entrada de novos protagonistas na cena política. A limitação para as duplas candidaturas irá paulatinamente trazer novos rostos ao parlamento. E oxalá mais qualidade, mais proximidade ao pais real e menos proximidade aos inqualificáveis esquemas partidários que ainda vigoram.

 

"IM_Pressões de Direita" in Jornal de Amarante de 16 Julho 2009